Multimídia Entrevistas

11/06/2010

Daniel Piza: jornalismo em ritmo de Copa


O jornalista Daniel Piza consolidou uma carreira profissional brilhante no Brasil, como editor e escritor. Mas, nesses tempos de Copa do Mundo, quem fala mais alto é o cronista esportivo.

O quartel general de Daniel Piza é um minúsculo aquário num prédio no bairro do Limão, onde fica a redação do jornal O Estado de S. Paulo. Cercado de livros, jornais e papéis, esse ‘enfant terrible’ do jornalismo escreve sobre tudo, o tempo todo, sempre com inteligência e brilho incomuns. A placa na porta diz "Editor executivo" mas, na prática, hoje Daniel quase não edita mais, só escreve.

A trajetória de Daniel Piza começou cedo. Nascido em São Paulo há 40 anos, ainda garoto ele já escrevia contos e poemas e fazia crítica de livros e filmes. Formado pela mais importante Faculdade de Direito do Brasil, a do Largo de São Francisco, em São Paulo, Daniel passou pelas redações dos mais importantes veículos da nossa imprensa, sempre como repórter ou editor na área cultural. Escreveu 16 livros entre os quais uma controvertida biografia de Machado de Assis e o best-seller “Airton Senna, o Eleito”.

Apaixonado por futebol, na coluna semanal que assina no Estadão não faltam análises e comentários sobre o maior esporte nacional. Na entrevista que concede ao jornalista Marco Lacerda, Daniel faz uma prévia sobre o que o Brasil pode esperar da Copa do Mundo em vias de começar.

Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Quando e como a literatura entrou na sua vida? O que te levou a ser escritor? Diz o dito que por trás de um escritor existe sempre um grande leitor?

Daniel Piza: É um raro dito popular com o qual estou de pleno acordo. Descobri-me leitor/escritor na idade quase ‘lugar comum’ de 14 anos.

A virada realmente aconteceu (outro lugar comum) com Dostoiévski, quando li não ‘Crime e Castigo’ ou ‘Os Irmãos Karamazov’, mas o ‘Memórias do Subsolo’, que na época era recebeu o nome (na tradução) de ‘Notas do Subterrâneo’.

Fiquei muito impressionado com a força daquilo. Mais ou menos na mesma época, descobri outros autores que estão comigo até hoje, principalmente Machado de Assis. Li ‘Quincas Borba’ e ‘O Alienista’, por dever escolar, mas fui muito além.


Lacerda: Você disse numa conferência que o jornalismo, em especial o jornalismo cultural, precisa retornar às suas origens do ensaio propostas no passado por Michel de Montaigne, o pai de todos os ensaístas. Você acha que é preciso recuperar a origem ensaística da crítica cultural na grande imprensa nacional. O que te leva a pensar assim, Daniel?

Piza: As leituras me levaram a pensar assim. Ao mesmo tempo em que descobri Dostoiévski, Machado, Baudelaire, Drummond, Eliot - todos os meus ídolos de juventude - descobri também os grandes críticos, ensaístas e jornalistas.

Parece-me muito claro que os grandes jornalistas (se você pensar, por exemplo, no George Orwell) foram aqueles que tinham consciência de que o jornalismo é um filho urbano do ensaísmo.

Aqui no Brasil temos Orestes de Almeida Prado, Euclides da Cunha e o próprio Machado de Assis. Nos Estados Unidos, temos o Mencken e tantos outros.

Quando foram criadas revistas como a Spectator (até hoje referência no jornalismo cultural), na Inglaterra do início do século XVIII, a ideia era esta: tirar o conhecimento dos gabinetes e dos doutores e levar para a rua, para o botequim e a taverna. Para o bate-papo na sala de estar das famílias.

E o jornalismo teve este papel inicial, de tornar o conhecimento uma coisa mais viva, mais orgânica, mais discutida, mais ampla. Aberta a qualquer um e não exclusiva de alguns eleitos.

Este espírito do ensaísmo, a liberdade de dizer “estou aqui e vou falar sobre o que bem quiser”, implica sempre um ponto de vista pessoal, que foi se perdendo um pouco com o jornalismo. Chegou um momento em que acharam que o jornalista ‘ter uma voz’ era algo ruim.

Hoje estamos redescobrindo, graças à internet, aos blogs e às publicações pequenas, que a voz autoral é fundamental, que o leitor está interessado nela e que é possível fazer grande jornalismo com isenção, imparcialidade. Mas impossível fazer sem os autores ‘bons texto’.


Lacerda: O trabalho diário no jornal apura o texto do escritor ou acaba atrapalhando?

Piza: Depende de como ele lida com isso. Drumonnd disse, em uma das suas crônicas, que algumas das páginas mais bonitas da literatura brasileira saíram na impressa, em papel de jornal. Aliás, podemos incluir as crônicas dele entre elas. Mas isso depende da pessoa.

Como é muito massacrante, tendemos a escrever da forma mais cômoda e convencional, que todo mundo ao redor está adotando. Até por uma questão assim de assimilação, a pessoa lê aquelas matérias todas e na hora de escrever tende a usar algumas expressões parecidas. É preciso lutar contra isso, caso contrário massacramos nossos estilos e empobrecemos nossos recursos.

Por outro lado, acho bom este aspecto de aprender a escrever com certa rapidez, de ter um texto que pega o leitor já no primeiro parágrafo, que não tenha nariz de cera, que seja objetivo no sentido de seduzir rápido o leitor.

Um livro pode esperar pela cumplicidade do leitor, porque ele tem inúmeras páginas pela frente. Mas o jornalismo não. A comunicação rápida, obviamente, amplia os poderes de comunicação e de expressão.

No meu caso pessoal, escrevi pelo menos uma matéria por dia durante meus primeiros anos de carreira. E, claro, havia uma irregularidade muito grande. Você comete erros, lê no dia seguinte e fala: “puxa, faltou falar tal coisa”.

Quando passei para a Gazeta Mercantil, no finalzinho de 1995, comecei a fazer um caderno semanal e achei que esse era o meu ritmo, no qual poderia produzir bom material com a rapidez e a atratividade do jornalismo.

Até hoje minha coluna é semanal, aquilo que vou escrever na próxima semana fica alguns dias matutando na minha cabeça. Para mim, é um bom equilíbrio entre a urgência jornalística e a elaboração literária.


Lacerda: Daniel você assina uma coluna sobre futebol, portanto é inevitável bater um pouco de bola com você. Como você avalia o trabalho de Dunga à frente da Seleção brasileira?

Piza: Vamos à primeira parte. Comecei a escrever sobre futebol dentro da ‘Sinopse’, que é uma coluna de cultura, assim como escrevo sobre política. Sempre achei que conseguiria colocar um olhar cultural sobre o futebol, como coloco sobre as outras coisas.

Depois, na copa de 1998, me chamaram para fazer uma coluna na Gazeta Mercantil sobre a Copa. Em 2002, me chamaram para fazer um diário da Copa no Estadão, no qual escrevia crônicas diárias. O convite repetiu-se em 2006 e está se repetindo agora, em 2010. (...)

O futebol sempre fez parte da vida, desde a infância. Jogo bola até hoje, tenho um amor muito grande pelo futebol bem jogado. Não sou torcedor fanático, mas gosto de ver o esporte, de acompanhar os craques, o que ampliou muito até a minha visão de Brasil.

Quando falo de futebol, tenho certa esperança de estar falando também sobre o Brasil, questões culturais como, por exemplo, a maneira com que os brasileiros tratam os ídolos. Acho este assunto muito interessante.

Vem, então, a segunda parte, que é a questão da Seleção do Dunga. Considero uma seleção que tem toda capacidade de ganhar a Copa, é muito competitiva. A Itália, Alemanha, Argentina, Inglaterra e Espanha estão no mesmo nível, mas não são melhores (ou muito melhores). Temos todas as condições de voltar com o hexacampeonato.

O que me desagrada é a ‘bitola’ dos critérios usados para chamar essa seleção. É um time que só joga no contra-ataque, com volantes demais, e tem aversão ao jogo bonito, como se ele não fosse eficiente. (...)

É também uma seleção um pouco mesquinha, moralista. Certos jogadores ficaram de fora porque não tem “comprometimento”, uma palavra que não sei o que significa.

Por que o Júlio Batista tem um comprometimento maior com a seleção do que o Ronaldinho Gaúcho? A ficha de serviços prestados do Ronaldinho Gaúcho ou do Adriano é muito maior que a do Júlio Batista. (...)


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.

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