Multimídia Entrevistas
04/06/2010
Alceu Valença: pop com pique de nordeste
Não por acaso, foi junto ao mar que a música arrebatou Alceu Valença para sempre. A música está presente na vida de Alceu desde menino, quando ele ouvia Luiz Gonzaga tocar nos auto-falantes de São Bento do Una, a pequena cidade do Pernambuco onde ele nasceu há 64 anos. Foi lá também que Alceu ouviu pela primeira vez os cantadores de rua, os tios cantando Noel e Caymmi ao luar.
Quando visitou Olinda pela primeira vez Alceu escutou os cantos mediterrâneos e medievais dos mosteiros e ficou deslumbrado ao ver o mar. A vida ganhou um novo sentido quando ele descobriu que o mar era maior que o açude da sua pequena São Bento do Una. Foi um debruçar poético sobre o mundo. Assim, o verão se tornaria cenário sempre presente na música de Alceu.
Alceu não tem território definido. Sua personalidade é múltipla, composta por diversos personagens. Sem medo de experimentar o novo nem de resgatar o tradicional, ele transita por todos os universos com o seu olhar. Alceu é um questionador, de senso crítico único. Pensa em tudo antes de tomar uma posição, mas nunca fica encima do muro nem segue a multidão.
Assim, ele conseguiu dar vida nova a uma gama de ritmos regionais, como baião, coco, toada, maracatu, frevo e repentes cantados com base no rock e no blues. Sua música e seu universo temático são universais, mas a sua base estética está fincada no nordeste brasileiro.
Alceu Valença é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Você diz que sua música teve influência do seu avô, o poeta e violeiro Orestes Alves Valença. Foi através desse homem, que tinha o apelido de Patativa, que a música entrou na sua vida?
Alceu Valença: Foi sim. Ele fazia versos de viola e escrevia cordéis, junto com meu tio, mas era ainda amador. Eles faziam “de brincadeira”.
Mas é verdade sim, os meus dois avôs me influenciaram muito. O pai de minha mãe tocava violino e ouvia clássico, também música popular, mas era uma coisa mais urbana, ou seja, Orlando Silva, Ivo Caldas, essa coisa toda.
Na parte dos meus avós paternos também se tocava viola e violão, mas de forma amadora. O que você citou, vovô Orestes, gostava muito de ouvir a música popular da região, aquelas toadas, aboios. Ele gostava desta cultura popular, que foi onde me liguei mais.
Marco Lacerda: Você é pernambucano, mas se transformou em um artista de repercussão nacional. Como você administra o regional e o universal na sua música?
Alceu Valença: Hoje em dia existe a questão da indústria. O universal, para ser bacana mesmo, tem que vir do regional. Não falo do caráter folclórico, mas veja o seguinte: uma música que não tenha nada a ver com o samba do Rio, com o frevo de Pernambuco ou uma toada de Minas Gerais, será um subproduto. Será o Mick Jagger nacional, o Michel Jackson brasileiro.
Agora, uma pessoa que parte das suas circunstâncias, raízes e referencias (anônimas inclusive) é muito mais original, na minha cabeça. Graças a Deus, para mim, não existe esta história de ter mitos e ídolos.
Nem Luiz Gonzaga foi um mito para mim. Por quê? Porque Luiz Gonzaga ouviu coisas que eu também ouvia. Se ele escutava aboios, eu também. Toadas? Eu também.
Agora, claro que ele me influenciou, até porque ouvia seu trabalho. Se não tivesse escutado Luiz Gonzaga, minha música poderia ser um pouco diferente.
Mas é assim que eu penso: primeiro o geral, depois o particular. Umas das melhores músicas do mundo, evidentemente, foram as dos Beatles. Você vai comparar a música de Roberto Carlos com a dos Beatles? Não tem nem graça! Na minha cabeça, é um subproduto.
Por exemplo, antigamente, existia um cantor chamado Silfarney, muito bom, mas não é melhor que Ray Charles, nunca! Nem melhor que o Frank Sinatra.
A gente está o tempo todo olhando. Os sertanejos, por exemplo, ficaram olhando demais e perderam sua referência. Se o sertanejo brasileiro for olhar para o texano, deixa de ser brasileiro e perde sua originalidade.
Marco Lacerda: Antes de se tornar músico, você quis ser jornalista. Chegou até a trabalhar no Jornal do Brasil. Como foi essa experiência?
Alceu Valença: Estudei Direito, mas não quis exercer, e tentei fazer jornalismo. Fui da sucursal do JB em Pernambuco, como fui da sucursal das revistas Bloch. Depois, a música veio de uma maneira natural e acabei cantor profissional.
Marco Lacerda: Você sempre precisou (ou gostou) de comprar brigas com a indústria cultural brasileira. Você é conhecido por nunca ter se curvado às grandes gravadoras, aliás você ficou famoso também por isso. Como são esses embates hoje em dia?
Alceu Valença: Passei por algumas gravadoras em que existia o respeito pelo artista. Na Som Livre, existia. Fui muito respeitado na gravação do meu primeiro disco, como Geraldo Azevedo. Respeitavam o nosso jeito de compor, de cantar, não queriam nos transformar em outra coisa.
Depois trabalhei com Guto Graça Melo, que foi meu produtor, e com Eustáquio Sena, um mineiro maravilhoso. Eles também adoravam música e queriam que “eu fosse eu”. Depois fui para a Ariola, onde essa briga também não aconteceu.
Agora, a partir de 1985, começou a aparecer, porque as empresas queriam que eu gravasse músicas com o interesse em ganhar royalties. Os caras pediam músicas, os compositores cediam, eles colocavam na voz de um cantor qualquer e promoviam a música na rádio.
Tentavam de toda maneira fazer a cabeça da gente, a minha até, para que eu gravasse aquilo. Só que eles não me diziam o que era e eu me recusava.
Deixei de ser o que era (de certa forma), deixei uma carreira de advogado (meu pai era advogado, seria fácil para mim), deixei minha carreira de jornalista para fazer arte. Para fazer arte, tenho que ser dono do meu nariz. É uma profissão problemática, justamente por causa disso.
Agora, quem quiser ser ventríloquo de donos e diretores de gravadoras, que sejam! Só que eles se acabam rápido. Já vi muita gente se acabar, porque a indústria descartável é assim mesmo.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
Quando visitou Olinda pela primeira vez Alceu escutou os cantos mediterrâneos e medievais dos mosteiros e ficou deslumbrado ao ver o mar. A vida ganhou um novo sentido quando ele descobriu que o mar era maior que o açude da sua pequena São Bento do Una. Foi um debruçar poético sobre o mundo. Assim, o verão se tornaria cenário sempre presente na música de Alceu.
Alceu não tem território definido. Sua personalidade é múltipla, composta por diversos personagens. Sem medo de experimentar o novo nem de resgatar o tradicional, ele transita por todos os universos com o seu olhar. Alceu é um questionador, de senso crítico único. Pensa em tudo antes de tomar uma posição, mas nunca fica encima do muro nem segue a multidão.
Assim, ele conseguiu dar vida nova a uma gama de ritmos regionais, como baião, coco, toada, maracatu, frevo e repentes cantados com base no rock e no blues. Sua música e seu universo temático são universais, mas a sua base estética está fincada no nordeste brasileiro.
Alceu Valença é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Você diz que sua música teve influência do seu avô, o poeta e violeiro Orestes Alves Valença. Foi através desse homem, que tinha o apelido de Patativa, que a música entrou na sua vida?
Alceu Valença: Foi sim. Ele fazia versos de viola e escrevia cordéis, junto com meu tio, mas era ainda amador. Eles faziam “de brincadeira”.
Mas é verdade sim, os meus dois avôs me influenciaram muito. O pai de minha mãe tocava violino e ouvia clássico, também música popular, mas era uma coisa mais urbana, ou seja, Orlando Silva, Ivo Caldas, essa coisa toda.
Na parte dos meus avós paternos também se tocava viola e violão, mas de forma amadora. O que você citou, vovô Orestes, gostava muito de ouvir a música popular da região, aquelas toadas, aboios. Ele gostava desta cultura popular, que foi onde me liguei mais.
Marco Lacerda: Você é pernambucano, mas se transformou em um artista de repercussão nacional. Como você administra o regional e o universal na sua música?
Alceu Valença: Hoje em dia existe a questão da indústria. O universal, para ser bacana mesmo, tem que vir do regional. Não falo do caráter folclórico, mas veja o seguinte: uma música que não tenha nada a ver com o samba do Rio, com o frevo de Pernambuco ou uma toada de Minas Gerais, será um subproduto. Será o Mick Jagger nacional, o Michel Jackson brasileiro.
Agora, uma pessoa que parte das suas circunstâncias, raízes e referencias (anônimas inclusive) é muito mais original, na minha cabeça. Graças a Deus, para mim, não existe esta história de ter mitos e ídolos.
Nem Luiz Gonzaga foi um mito para mim. Por quê? Porque Luiz Gonzaga ouviu coisas que eu também ouvia. Se ele escutava aboios, eu também. Toadas? Eu também.
Agora, claro que ele me influenciou, até porque ouvia seu trabalho. Se não tivesse escutado Luiz Gonzaga, minha música poderia ser um pouco diferente.
Mas é assim que eu penso: primeiro o geral, depois o particular. Umas das melhores músicas do mundo, evidentemente, foram as dos Beatles. Você vai comparar a música de Roberto Carlos com a dos Beatles? Não tem nem graça! Na minha cabeça, é um subproduto.
Por exemplo, antigamente, existia um cantor chamado Silfarney, muito bom, mas não é melhor que Ray Charles, nunca! Nem melhor que o Frank Sinatra.
A gente está o tempo todo olhando. Os sertanejos, por exemplo, ficaram olhando demais e perderam sua referência. Se o sertanejo brasileiro for olhar para o texano, deixa de ser brasileiro e perde sua originalidade.
Marco Lacerda: Antes de se tornar músico, você quis ser jornalista. Chegou até a trabalhar no Jornal do Brasil. Como foi essa experiência?
Alceu Valença: Estudei Direito, mas não quis exercer, e tentei fazer jornalismo. Fui da sucursal do JB em Pernambuco, como fui da sucursal das revistas Bloch. Depois, a música veio de uma maneira natural e acabei cantor profissional.
Marco Lacerda: Você sempre precisou (ou gostou) de comprar brigas com a indústria cultural brasileira. Você é conhecido por nunca ter se curvado às grandes gravadoras, aliás você ficou famoso também por isso. Como são esses embates hoje em dia?
Alceu Valença: Passei por algumas gravadoras em que existia o respeito pelo artista. Na Som Livre, existia. Fui muito respeitado na gravação do meu primeiro disco, como Geraldo Azevedo. Respeitavam o nosso jeito de compor, de cantar, não queriam nos transformar em outra coisa.
Depois trabalhei com Guto Graça Melo, que foi meu produtor, e com Eustáquio Sena, um mineiro maravilhoso. Eles também adoravam música e queriam que “eu fosse eu”. Depois fui para a Ariola, onde essa briga também não aconteceu.
Agora, a partir de 1985, começou a aparecer, porque as empresas queriam que eu gravasse músicas com o interesse em ganhar royalties. Os caras pediam músicas, os compositores cediam, eles colocavam na voz de um cantor qualquer e promoviam a música na rádio.
Tentavam de toda maneira fazer a cabeça da gente, a minha até, para que eu gravasse aquilo. Só que eles não me diziam o que era e eu me recusava.
Deixei de ser o que era (de certa forma), deixei uma carreira de advogado (meu pai era advogado, seria fácil para mim), deixei minha carreira de jornalista para fazer arte. Para fazer arte, tenho que ser dono do meu nariz. É uma profissão problemática, justamente por causa disso.
Agora, quem quiser ser ventríloquo de donos e diretores de gravadoras, que sejam! Só que eles se acabam rápido. Já vi muita gente se acabar, porque a indústria descartável é assim mesmo.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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