Multimídia Entrevistas
14/05/2010
Sílvio Meira: a Ciência entre bytes e maracatus
O sorriso franco e contagiante é marca registrada do cientista Sílvio Meira. Aliás, motivos para sorrir não faltam na vida desse cientista pernambucano que trabalha a maior parte do dia e considera o trabalho uma diversão. Silvio é um dos maiores pesquisadores de Engenharia de Software no Brasil.
No ano 2000, ele fundou o Porto Digital, uma iniciativa revolucionária que transformou o centro histórico do Recife, até então mergulhado na prostituição e no tráfico de drogas, num parque tecnológico que hoje reúne 130 empresas, emprega 4 mil pessoas e fatura 450 milhões de reais por ano.
Sílvio Meira é criador também, entre muitas outras iniciativas, de um originalíssimo game para computador ao qual deu o nome de Futweeter, uma mistura de Twitter e futebol. Trata-se de um bolão virtual que terá uma versão para a Copa do Mundo deste ano.
E é para falar sobre estas e muitas outras aventuras no universo da tecnologia da informação e da comunicação que Silvio Meira está no Dom Total.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Conte para nós - quem é Silvio Meira?
Sílvio Meira: Sílvio Meira é batuqueiro de Maracatu. Maracatu é algo que ocorre unicamente ao redor do Marco Zero, que é uma praça localizada no centro de Recife.
Mas Sílvio Meira é também professor de engenharia de software da Universidade Federal de Pernambuco, cientista, presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, investidor de várias empresas de tecnologia da informação. É ainda colunista do portal Terra Magazine, palestrante, pai, marido.
Marco Lacerda: Você se declara um homem patologicamente otimista e essencialmente revolucionário. Dá pra trocar essa auto-descrição em miúdos?
Sílvio Meira: A história de ser patologicamente otimista vem de uma posição completamente antagônica: acredito, quando começo qualquer coisa, que tudo vai dar errado. Como você pode ser patologicamente otimista se parte do princípio que tudo vai dar errado?
Eu olho para o futuro. Olhando a história do passado, onde efetivamente tudo deu errado, tento me envolver, no limite das minhas forças e do meu conhecimento, com tudo que estou tentando fazer. Porque as coisas darão errado.
Para dar minimamente certo, a gente precisa dedicar uma quantidade infinita de tempo, conhecimento, relacionamento, convicção e conectividade com outras pessoas. Cadeias de valores, modelos de negócios.
Essa coisa de se dedicar como se tudo fosse falhar é essencialmente revolucionária, que é o outro lado da moeda. Ou seja, você faz uma espécie de procissão de fé (digo isso apesar de ser completamente ateu) nesse processo de mudança.
Quando saímos do estágio em que nos encontramos para o lugar que desejamos ir, descobrimos, ao mesmo tempo, que tentamos mudar a nossa vida o tempo todo.
A história é essencialmente revolucionária. Sejam lá quais forem os modos, modelos, princípios e estabilidades da sua atual condição, o mundo ao nosso redor é composto de um conjunto de agentes completamente independentes, que estão competindo e cooperando para sobreviver. E nós não mandamos neles.
Na hora que olho para esse contexto, descubro o seguinte: ou saio de forma revolucionária (achando que tudo vai dar errado) e tento construir o meu futuro, ou certamente viverei em algum tipo de passado. Isso não me interessa, e não deveria interessar a ninguém.
Marco Lacerda: Você é um cientista que passa a vida com os olhos voltados para o futuro. O que é o futuro pra você Sílvio? A partir de que momento a noção de futuro surge pra humanidade?
Sílvio Meira: Na minha visão particular de mundo (talvez muito exótica para muitos), o futuro vem do futuro. Vamos pensar: se olhar para onde estou agora (presente) e para trás (todas as coisas que fiz), posso imaginar uma escadaria, onde cada ano era um passo no qual construí coisas e cheguei aqui. Mas no fundo, essa explicação é um pouco falsa.
Digo falsa porque durante o tempo todo, no passado, pude escolher coisas. Se iria ou não continuar estudando, fazer ou não fazer aquilo, namorar aquela menina ou aquela outra. Casar? Qual emprego pegar? A todo ano - e a cada passo - dei saltos, muitas vezes arriscados, que tinham a possibilidade de dar certo ou dar errado.
Quando olho para o passado, como sendo uma escadaria que constrói o presente, estou excluindo todas as alternativas que havia em cada degrau.
Agora, na verdade o futuro vem do futuro. São escadarias que se desenham de lá pra cá, do futuro para o presente, das múltiplas coisas que eventualmente quero fazer. A cada degrau, dou um salto arriscado para uma escada que não existe.
Esta escada existirá se eu convencer gente em quantidade suficiente. Ou se tiver energia em quantidade suficiente para criar aquela estrada. A verdade é que, a cada momento do presente, temos múltiplas versões de futuro e assumimos riscos. Se fracassarmos momentaneamente, temos que nos recuperar das cinzas tal fênix e continuar.
Marco Lacerda: Nos últimos dez anos, quais foram as grandes mudanças tecnológicas que a humanidade conheceu?
Sílvio Meira: Expandiria para os últimos 15 anos. De 1995 pra cá, vimos surgir um novo mecanismo de conectar pessoas, instituições, países e regiões. Ao mesmo tempo, passamos pela ‘dessincronização’ e ‘deslocalização’ do tempo, da geografia e da sociedade como um todo.
De repente, o mundo todo virou um ponto. Temos um golpe de estado no Irã (com um a eleição que foi totalmente fraudada), por exemplo, e todo o mundo participa.
Em variados graus de intensidade, observamos uma tentativa mundial de dizer para o Irã: “Ei, existe democracia, regras, conceitos”.
Voltando a uma catástrofe recente, o desastre ambiental no Rio de Janeiro. Na ocasião, a maior parte da informação foi gerada fora dos meios clássicos de comunicação, pelo cidadão comum, empoderado por novos instrumentos de captura e meios de conexão.
A tecnologia deu a esse cidadão a capacidade de participar ativamente. Nos últimos 10 anos, talvez o que tenha ficado de mais importante é que a periferia assumiu o papel de centro.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
No ano 2000, ele fundou o Porto Digital, uma iniciativa revolucionária que transformou o centro histórico do Recife, até então mergulhado na prostituição e no tráfico de drogas, num parque tecnológico que hoje reúne 130 empresas, emprega 4 mil pessoas e fatura 450 milhões de reais por ano.
Sílvio Meira é criador também, entre muitas outras iniciativas, de um originalíssimo game para computador ao qual deu o nome de Futweeter, uma mistura de Twitter e futebol. Trata-se de um bolão virtual que terá uma versão para a Copa do Mundo deste ano.
E é para falar sobre estas e muitas outras aventuras no universo da tecnologia da informação e da comunicação que Silvio Meira está no Dom Total.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Conte para nós - quem é Silvio Meira?
Sílvio Meira: Sílvio Meira é batuqueiro de Maracatu. Maracatu é algo que ocorre unicamente ao redor do Marco Zero, que é uma praça localizada no centro de Recife.
Mas Sílvio Meira é também professor de engenharia de software da Universidade Federal de Pernambuco, cientista, presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, investidor de várias empresas de tecnologia da informação. É ainda colunista do portal Terra Magazine, palestrante, pai, marido.
Marco Lacerda: Você se declara um homem patologicamente otimista e essencialmente revolucionário. Dá pra trocar essa auto-descrição em miúdos?
Sílvio Meira: A história de ser patologicamente otimista vem de uma posição completamente antagônica: acredito, quando começo qualquer coisa, que tudo vai dar errado. Como você pode ser patologicamente otimista se parte do princípio que tudo vai dar errado?
Eu olho para o futuro. Olhando a história do passado, onde efetivamente tudo deu errado, tento me envolver, no limite das minhas forças e do meu conhecimento, com tudo que estou tentando fazer. Porque as coisas darão errado.
Para dar minimamente certo, a gente precisa dedicar uma quantidade infinita de tempo, conhecimento, relacionamento, convicção e conectividade com outras pessoas. Cadeias de valores, modelos de negócios.
Essa coisa de se dedicar como se tudo fosse falhar é essencialmente revolucionária, que é o outro lado da moeda. Ou seja, você faz uma espécie de procissão de fé (digo isso apesar de ser completamente ateu) nesse processo de mudança.
Quando saímos do estágio em que nos encontramos para o lugar que desejamos ir, descobrimos, ao mesmo tempo, que tentamos mudar a nossa vida o tempo todo.
A história é essencialmente revolucionária. Sejam lá quais forem os modos, modelos, princípios e estabilidades da sua atual condição, o mundo ao nosso redor é composto de um conjunto de agentes completamente independentes, que estão competindo e cooperando para sobreviver. E nós não mandamos neles.
Na hora que olho para esse contexto, descubro o seguinte: ou saio de forma revolucionária (achando que tudo vai dar errado) e tento construir o meu futuro, ou certamente viverei em algum tipo de passado. Isso não me interessa, e não deveria interessar a ninguém.
Marco Lacerda: Você é um cientista que passa a vida com os olhos voltados para o futuro. O que é o futuro pra você Sílvio? A partir de que momento a noção de futuro surge pra humanidade?
Sílvio Meira: Na minha visão particular de mundo (talvez muito exótica para muitos), o futuro vem do futuro. Vamos pensar: se olhar para onde estou agora (presente) e para trás (todas as coisas que fiz), posso imaginar uma escadaria, onde cada ano era um passo no qual construí coisas e cheguei aqui. Mas no fundo, essa explicação é um pouco falsa.
Digo falsa porque durante o tempo todo, no passado, pude escolher coisas. Se iria ou não continuar estudando, fazer ou não fazer aquilo, namorar aquela menina ou aquela outra. Casar? Qual emprego pegar? A todo ano - e a cada passo - dei saltos, muitas vezes arriscados, que tinham a possibilidade de dar certo ou dar errado.
Quando olho para o passado, como sendo uma escadaria que constrói o presente, estou excluindo todas as alternativas que havia em cada degrau.
Agora, na verdade o futuro vem do futuro. São escadarias que se desenham de lá pra cá, do futuro para o presente, das múltiplas coisas que eventualmente quero fazer. A cada degrau, dou um salto arriscado para uma escada que não existe.
Esta escada existirá se eu convencer gente em quantidade suficiente. Ou se tiver energia em quantidade suficiente para criar aquela estrada. A verdade é que, a cada momento do presente, temos múltiplas versões de futuro e assumimos riscos. Se fracassarmos momentaneamente, temos que nos recuperar das cinzas tal fênix e continuar.
Marco Lacerda: Nos últimos dez anos, quais foram as grandes mudanças tecnológicas que a humanidade conheceu?
Sílvio Meira: Expandiria para os últimos 15 anos. De 1995 pra cá, vimos surgir um novo mecanismo de conectar pessoas, instituições, países e regiões. Ao mesmo tempo, passamos pela ‘dessincronização’ e ‘deslocalização’ do tempo, da geografia e da sociedade como um todo.
De repente, o mundo todo virou um ponto. Temos um golpe de estado no Irã (com um a eleição que foi totalmente fraudada), por exemplo, e todo o mundo participa.
Em variados graus de intensidade, observamos uma tentativa mundial de dizer para o Irã: “Ei, existe democracia, regras, conceitos”.
Voltando a uma catástrofe recente, o desastre ambiental no Rio de Janeiro. Na ocasião, a maior parte da informação foi gerada fora dos meios clássicos de comunicação, pelo cidadão comum, empoderado por novos instrumentos de captura e meios de conexão.
A tecnologia deu a esse cidadão a capacidade de participar ativamente. Nos últimos 10 anos, talvez o que tenha ficado de mais importante é que a periferia assumiu o papel de centro.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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