Multimídia Entrevistas

23/04/2010

Deborah Colker: ousadia na dança


Ela já foi arrasada por críticos brasileiros e estrangeiros, mal informados, é claro, que adoravam dizer que seu trabalho não era dança, era ginástica. Hoje Deborah Colker é considerada um dos cem brasileiros mais influentes no mundo. Tudo isso graças à ousadia de coreografias em que os bailarinos escalam paredes, equilibram-se sobre estruturas móveis e se atiram no vazio.

Foi só uma questão de tempo. Quem antes jogava pedra em Deborah, hoje trabalha com ela e se desmancha em elogios pelo vanguardismo do seu talento.

As restrições dos tradicionalistas só foram postas de lado quando Deborah arrebatou o prêmio Laurence Olivier, uma espécie de Oscar europeu das artes cênicas. Uma conquista e tanto para uma companhia jovem, que só encontra paralelo no panorama da dança brasileira no veteraníssimo Grupo Corpo, de Belo Horizonte, com mais de 30 anos de estrada.

A carioca Deborah Colker, loura e espevitada, é a convidada do Dom Total nesta semana. Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Deborah, como e quando a dança surgiu na sua vida?

Deborah Colker: Faz muito tempo, era pequena. Tenho dois irmãos mais velhos, sou a menina da casa. Toda mãe gosta de colocar a menina pra fazer dança.

Fiz balé quando era bem pirralha, durante uns quatro anos, e parei por conta das coisas da vida (a gente troca, faz outras coisas). Estudei muito piano, muita música.

Quando tinha 15 anos de idade, voltei a dançar. Comecei já na dança contemporânea aliada a outras atividades corporais: sapateado, dança moderna.

Comecei também a participar de um grupo (que na época era underground) no Rio de Janeiro, em 1979. Dancei com esse grupo durante sete anos. A partir de 1988, comecei realmente a desenvolver meu próprio trabalho, no qual trabalho até hoje.


Marco Lacerda: Onde você busca inspiração pra cada novo espetáculo? Em que fontes você bebe?

Deborah Colker: No mundo contemporâneo, nas coisas que acontecem, nossas paixões, inquietações. Durante muito tempo, o próprio cotidiano foi fonte de inspiração fortíssima para mim: os esportes, as questões físicas, os movimentos, os parque de diversões, a vida dentro de uma casa, as artes plásticas.

Sempre escolho um tema para mergulhar. Cada espetáculo tem um conceito, uma questão que está sendo discutida, e nosso universo é banhado por aquele assunto.

O primeiro espetáculo foi sobre vulcão, depois fizemos o “Velox”, o “Mix”, “Rota”, “Casa”, “4 por 4”, “Dínamo”, “Nó” e “Cruel”. Cada um deles tem uma inspiração de idéias, um assunto que quero tratar e discutir com urgência.

Assuntos próprios da fisicalidade, da relação movimento-corpo, o desenvolvimento da linguagem. Cada espetáculo vai deixando perguntas que um só não responde. Desde “Nó” (2005), a alma humana (a condição humana) está sendo de grande inspiração.


Marco Lacerda: Como foi enfrentar a crítica no começo da sua carreira? Pesavam muito os comentários de que seu trabalho não era dança, era ginástica?

Deborah Colker: No início, me incomodava um pouco. Depois percebi que era um trabalho novo, que estava propondo experiências e pesquisas diferentes. Quando as pessoas não conhecem as coisas, elas tendem a associar com aquilo que elas conhecem.

“Velox”, por exemplo, foi um espetáculo sobre a gravidade, que tinha a parede, de descoberta de um mundo novo para dançar na vertical. Normalmente, temos as funções de deslocamento com as pernas, de estar em pé e se deslocar, e no espetáculo fazíamos muito através dos braços, na parede.

Depois fiz o “Rota”, que era movimento com a roda - nunca foi ginástica na vida. Disseram que o “Velox” era ginástica, depois que o “Rota” era circo.

Em “Casa”, tudo acontecia na posição dos planos e da casa, entrávamos dentro dela e nos relacionávamos. Era quase como um origami, abrindo e fechando. O chão virava teto, as portas viravam janelas. Um jogo construção e desconstrução do espaço, dialogando com a desconstrução dos movimentos, e diziam que era... Sei lá!

Depois, quando fiz o 4x4, também diziam que era show, enfim. Acho que a crítica, às vezes, tem uma função de criar um contraponto, fazer pensar diferente. Ou então ela não compreende aquilo, ou tenta catalogar o que é dança contemporânea.

O nome já diz, dança contemporânea é o que a gente está fazendo hoje. Não pode catalogar. Tem que ser original, tem que ser experimentado, reinventado, repesquisado.

Quando comecei a entender tudo isso, pensei: ‘ah, ta tudo certo’. Lembro sempre do Nelson Rodrigues, ‘a unanimidade é burra’. Mas ouvi muitas coisas diferentes também, de pessoas de outras áreas.

Então, no início foi difícil, mas sabia que estava vindo com um trabalho muito diferente. Desisti de agradar a crítica, minha relação é com o público.


Marco Lacerda: Você ainda se espanta ou se irrita quando ouve comentários do tipo "Gostei muito do seu show".

Deborah Colker: Talvez não seja a melhor palavra para traduzir meu espetáculo. Olha, vou ver um show... Vi o show do Radiohead no final do ano passado, vou ver os Stones. Acho que meu espetáculo é uma coisa muito diferente de um show, mas fico feliz se alguém consegue ter a experiência de sensações e emoções que temos em um show no meu espetáculo. Puxa vida!

Acredito que a arte é uma experiência única, que não é comparável a nada. O que espero é que as pessoas que vão assistir meu espetáculo tenham alguns momentos de experiência, de troca de ideias e vibrações. Se consigo fazer um pouco disso, já está bom.

O nome que você vai dar para isso varia, pois os valores estão muito confusos: o que é arte? O que não é arte? O que é dança? O que é teatro? O que é música? Qual o lugar que cada um cabe só é importante para colocar no tijolinho do jornal.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.

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