Multimídia Entrevistas
16/04/2010
Jota Dângelo: a voz do teatro em Minas Gerais
José Geraldo Dângelo ou simplesmente Jota Dângelo ainda é o nome que melhor traduz a atividade teatral em Minas Gerais. Diretor, ator e dramaturgo, Dângelo é conhecido como renovador do teatro em Belo Horizonte, sobretudo a partir do fim da década de 1950, quando participou da fundação do Teatro Experimental. Durante a ditadura, ele escreveu e dirigiu textos que faziam oposição aberta ao regime militar.
A frente do Teatro Experimental, Dângelo realizou espetáculos de autores da vanguarda européia como Samuel Beckett e Fernando Arrabal. É de autoria dele, a primeira encenação no Brasil de ‘Fim de Jogo, de Beckett, mas foi em parceria com o ator Jonas Bloch que Dângelo realizou a montagem da peça mais emblemática do teatro mineiro - “Oh, oh, oh, Minas Gerais” - que o colocaria durante muitos anos na mira da censura.
A estratégia da metáfora, ou seja, falar da ditadura sem referir diretamente a ela é utilizada também na Escola de Samba de São João Del Rei, sua terra natal, na qual desde 1957 Dângelo exerce a função de sambista e carnavalesco. Professor universitário formado em medicina, Dângelo nunca quis se profissionalizar no teatro, preferindo olhar as artes cênicas com os olhos de um amador, porque teatro, para ele, é mais do que profissão, é sua religião.
Jota Dângelo é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Dângelo, você é um homem formado em medicina inclusive com especialização nos Estados Unidos. Você alguma vez exerceu a profissão de médico?
Jota Dângelo: A profissão de médico é um ‘entre aspas’. Na verdade, quando me formei na Faculdade de Medicina, estava sendo implantado aqui no Brasil o programa de tempo integral (dedicação exclusiva) nas universidades. Belo Horizonte foi escolhida como um dos lugares em que essa implantação era possível.
Por esta razão, fui convidado para ser um professor de morfologia na Faculdade de Medicina (em tempo integral e dedicação exclusiva) e aceitei o cargo. Dessa forma, não tive chance de exercer a medicina, passei a fazer da minha carreira somente o magistério.
Marco Lacerda: Como se deu o seu envolvimento com o teatro?
Jota Dângelo: Costumo dizer que o envolvimento começou já em São João Del Rei que, como toda cidade barroca, é ritualística. É uma cidade de alta religiosidade: muitas procissões, celebrações da Semana Santa. As celebrações litúrgicas, na verdade, são um verdadeiro teatro.
Já estava acostumado, desde a infância, a esse cenário teatral que uma cidade barroca em católica costuma apresentar. Não só São João, Ouro Preto é assim, Mariana também. As cidades do Clico do Ouro são todas muito teatrais.
Em segundo lugar, fui fazer o segundo grau no Colégio Santo Antônio, em São João, que era dirigido pelos Freis Franciscanos holandeses, que tinham como fundamental objetivo uma educação humanística. Portanto, dentro do colégio, havia grupo de teatro, grêmio literário, cinema.
Já estava envolvido com as artes, com o aspecto do universo criativo, e isso já me entusiasmou desde aquela época. Portanto, quando cheguei em Belo Horizonte para fazer o vestibular de medicina, em 1950, já estava contaminado pelo germe do teatro.
Marco Lacerda: Você acaba de lançar o livro ‘Os anos heróicos do teatro em Minas’. Quais foram estes anos e o que havia de heróico deles?
Jota Dângelo: No prefácio do livro, já digo que o título não é muito correto, porque considero que os anos heróicos são todos. Para quem trabalha na área de cultura, não existem apenas alguns anos heróicos.
Especificamente, os anos que discuto no livro talvez sejam um pouco mais heróicos. Peguei o período de 1950 a 1990, portanto é uma época que não tem leis de incentivo (nem estadual, nem federal, nem municipal), não tem Secretário de Cultura ou Ministério de Cultura.
É um período em que as pessoas que trabalhavam nas artes cênicas estavam entregues à própria sorte e tinham que produzir seus espetáculos com os seus próprios recursos e com a vontade de acertar.
Marco Lacerda: Dângelo, o livro fala também sobre a grande batalha que foi a criação do teatro universitário. Fala um pouco sobre as origens e a luta do famoso TU.
Jota Dângelo: O Teatro Universitário levou toda uma década (a de 1950) para se consolidar como uma instituição com curso de formação de atores, quando nos empenhamos (eu e o pessoal da minha geração) pela sua criação.
Não foi fácil. Evidentemente, o primeiro grande passo que se esperava era ter uma grande instituição qualquer que abrigasse um curso de formação de atores. Pela nossa visão, isso só poderia ser feito pela universidade.
Portanto, convencer a UFMG da necessidade de se criar um curso de formação de atores já foi uma epopéia. E a implantação de um curso desta natureza também não é muito fácil, ainda mais em uma cidade ainda pequena (Belo Horizonte contava com 600 mil habitantes).
Era difícil conseguir, inclusive, pessoas que fossem profissionalmente capacitadas para preencher os requisitos docentes de um curso de formação de atores. É verdade também que havia uma boa vontade de todas as pessoas que estavam juntas para criar o TU.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
A frente do Teatro Experimental, Dângelo realizou espetáculos de autores da vanguarda européia como Samuel Beckett e Fernando Arrabal. É de autoria dele, a primeira encenação no Brasil de ‘Fim de Jogo, de Beckett, mas foi em parceria com o ator Jonas Bloch que Dângelo realizou a montagem da peça mais emblemática do teatro mineiro - “Oh, oh, oh, Minas Gerais” - que o colocaria durante muitos anos na mira da censura.
A estratégia da metáfora, ou seja, falar da ditadura sem referir diretamente a ela é utilizada também na Escola de Samba de São João Del Rei, sua terra natal, na qual desde 1957 Dângelo exerce a função de sambista e carnavalesco. Professor universitário formado em medicina, Dângelo nunca quis se profissionalizar no teatro, preferindo olhar as artes cênicas com os olhos de um amador, porque teatro, para ele, é mais do que profissão, é sua religião.
Jota Dângelo é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Dângelo, você é um homem formado em medicina inclusive com especialização nos Estados Unidos. Você alguma vez exerceu a profissão de médico?
Jota Dângelo: A profissão de médico é um ‘entre aspas’. Na verdade, quando me formei na Faculdade de Medicina, estava sendo implantado aqui no Brasil o programa de tempo integral (dedicação exclusiva) nas universidades. Belo Horizonte foi escolhida como um dos lugares em que essa implantação era possível.
Por esta razão, fui convidado para ser um professor de morfologia na Faculdade de Medicina (em tempo integral e dedicação exclusiva) e aceitei o cargo. Dessa forma, não tive chance de exercer a medicina, passei a fazer da minha carreira somente o magistério.
Marco Lacerda: Como se deu o seu envolvimento com o teatro?
Jota Dângelo: Costumo dizer que o envolvimento começou já em São João Del Rei que, como toda cidade barroca, é ritualística. É uma cidade de alta religiosidade: muitas procissões, celebrações da Semana Santa. As celebrações litúrgicas, na verdade, são um verdadeiro teatro.
Já estava acostumado, desde a infância, a esse cenário teatral que uma cidade barroca em católica costuma apresentar. Não só São João, Ouro Preto é assim, Mariana também. As cidades do Clico do Ouro são todas muito teatrais.
Em segundo lugar, fui fazer o segundo grau no Colégio Santo Antônio, em São João, que era dirigido pelos Freis Franciscanos holandeses, que tinham como fundamental objetivo uma educação humanística. Portanto, dentro do colégio, havia grupo de teatro, grêmio literário, cinema.
Já estava envolvido com as artes, com o aspecto do universo criativo, e isso já me entusiasmou desde aquela época. Portanto, quando cheguei em Belo Horizonte para fazer o vestibular de medicina, em 1950, já estava contaminado pelo germe do teatro.
Marco Lacerda: Você acaba de lançar o livro ‘Os anos heróicos do teatro em Minas’. Quais foram estes anos e o que havia de heróico deles?
Jota Dângelo: No prefácio do livro, já digo que o título não é muito correto, porque considero que os anos heróicos são todos. Para quem trabalha na área de cultura, não existem apenas alguns anos heróicos.
Especificamente, os anos que discuto no livro talvez sejam um pouco mais heróicos. Peguei o período de 1950 a 1990, portanto é uma época que não tem leis de incentivo (nem estadual, nem federal, nem municipal), não tem Secretário de Cultura ou Ministério de Cultura.
É um período em que as pessoas que trabalhavam nas artes cênicas estavam entregues à própria sorte e tinham que produzir seus espetáculos com os seus próprios recursos e com a vontade de acertar.
Marco Lacerda: Dângelo, o livro fala também sobre a grande batalha que foi a criação do teatro universitário. Fala um pouco sobre as origens e a luta do famoso TU.
Jota Dângelo: O Teatro Universitário levou toda uma década (a de 1950) para se consolidar como uma instituição com curso de formação de atores, quando nos empenhamos (eu e o pessoal da minha geração) pela sua criação.
Não foi fácil. Evidentemente, o primeiro grande passo que se esperava era ter uma grande instituição qualquer que abrigasse um curso de formação de atores. Pela nossa visão, isso só poderia ser feito pela universidade.
Portanto, convencer a UFMG da necessidade de se criar um curso de formação de atores já foi uma epopéia. E a implantação de um curso desta natureza também não é muito fácil, ainda mais em uma cidade ainda pequena (Belo Horizonte contava com 600 mil habitantes).
Era difícil conseguir, inclusive, pessoas que fossem profissionalmente capacitadas para preencher os requisitos docentes de um curso de formação de atores. É verdade também que havia uma boa vontade de todas as pessoas que estavam juntas para criar o TU.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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