Multimídia Entrevistas

09/04/2010

Lya Luft: entre perdas e ganhos


Lya Luft começou sua vida literária nos anos 60, como tradutora para o português de obras literárias alemãs e inglesas. Já traduziu mais mais de 200 livros. Entre os pesos-pesados, se incluem Virginia Wolf, Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass e Thomas Mann, entre muitos outros. Em 1979, um desastre de carro quase custou a vida de Lya – episódio que contribuiu para a formação de uma das grandes ficcionistas da literatura brasileira.

Lya ficou viúva duas vezes. Ao perder o segundo marido, voltou a casar-se com o primeiro, que morreria pouco depois – baque do qual ela levaria anos para se recuperar e transformar-se na mulher de bem com a vida que hoje é. Em 2003, com o livro “Perdas e Ganhos”, Lya desbancou Paulo Coelho da lista dos mais vendidos no Brasil, batendo aquele que na época era o maior best-seller do mundo.

O que torna tão sedutora a literatura dessa mulher que começou a escrever perto dos 40 anos? É para responder esta pergunta e muito mais que Lya Luft é a convidada da semana do Dom Total.

Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Que tal a gente começar o nosso bate-papo com você falando um pouco sobre o seguinte: nas suas palavras, quem é Lya Luft?

Lya Luft: Lya Luft é, cada vez mais, uma pessoa em busca de simplicidade. Simplicidade é importante na maneira de vestir, de trabalhar. Embora nunca desistindo de cuidado, capricho e sofisticação nos meus textos.


Lacerda: Você costuma dizer que escreve sobre o que te assombra? O que mais de assombra na vida, Lya?

Lya Luft: Os desencontros são as coisas que mais me assombram na vida. Desencontros humanos, amorosos, a dificuldade de se comunicar - tenho escrito muito sobre estes assuntos.

Inclusive meu último, “O silêncio dos amantes”, é composto por 20 contos que trazem questionamentos como: ‘devia ter calado e falei uma palavra na hora errada’. ‘Devia ter falado e fiquei quieto’. Nas duas situações, fazemos mal a alguém e não sabemos.

Não é por maldade que as pessoas têm tanto problema de comunicação. Sobretudo na família, que é meu referencial. Sou extremamente ligada à família, como meu pai.


Lacerda: Noutra ocasião você disse que sua obra poderia ser resumida num livro de indagações. Você poderia citar indagações que marcaram e ainda marcam a sua vida?

Lya Luft: Escrevo sobre coisas que não entendo. Ontem, por exemplo, um menino de 16 anos morreu afogado na praia, bem na minha frente.

Qual o sentido disso? O menino que foi ao mar para se divertir com a sua namorada. Quantos afogados neste mar! Tudo me assombra muito. E vem (o que acredito ser) a grande indagação: que sentido tem tudo isso?

Outra indagação é esta que acabei de falar: por que é tão difícil nos comunicarmos? Outra: por que é tão difícil a gente ser feliz? Feliz no sentido de viver em relativa harmonia consigo mesmo, com a natureza, com o universo.


Lacerda: Aliás, você disse em algum lugar que a gente fica mais interessante depois dos 40 anos. Por quê, Lia?

Lya Luft: Porque, aos 40, você começa a ter alguma experiência de vida, alguma bagagem. Você começa a virar gente.

A juventude é bonita, mas é um porre: primeiro você tem que arrumar emprego. Tem que saber se transa ou não transa, se casa ou não casa, se tem filho ou não. Faço faculdade?

A competição é uma coisa tremenda, há muita dificuldade de se conseguir bons empregos, que levam a dificuldades econômicas.

Então, a certa altura da vida, acredita-se que você já tenha descoberto alguns valores. Quero seguir por aqui, aquilo não me serve. Acho realmente que a gente fica muito mais interessante.

Estou com 71 anos e ainda estou ‘ficando gente’. Tenho muitos amigos e amigas nesta faixa de idade - entre 60 e 80. São pessoas extraordinariamente interessantes, que aos 20 eram apenas jovens tentando se encontrar, com todas suas aflições.


Lacerda: Em apenas oito anos você perdeu dois maridos: Celso Pedro Luft e o psicanalista e escritor Helio Pellegrino. O que essas perdas representaram na sua vida?

Lya Luft: Foram meus anos de chumbo. Separei-me do Celso, mas continuamos muito amigos, e fui morar com o Hélio. Dois anos depois, ele morreu. Para mim, foi como se tirassem o chão, o mundo caiu debaixo dos meus pés.

Voltei, então, para Porto Alegre. O carinho, o cuidado e o amor dos meus amigos me salvaram. Também do meu ex-marido e dos meus filhos, que já eram adultos. Precisava realmente que cuidassem de mim e fui lentamente retomando a vida.

O meu pensamento era este: o Hélio e eu apostamos muito alto. A gente apostou na vida. Não vou permitir que a morte me derrote.

Após quatro anos, voltei a me casar com o Celso e, um ano depois, ele sofreu um AVC sério. Durante três anos parte de nossa casa foi transformada em enfermaria. Fiquei viúva a primeira vez aos 49 e a segunda aos 57.

Foi muito difícil, mas tive o apoio dos meus filhos, fiz as minhas coisas, escrevi livros, continuei produzindo. Encontramos dentro da gente forças que jamais imaginávamos.

Hoje estou no terceiro casamento, há quase sete anos, com um engenheiro carioca que já se “agauchou”. Hoje ele mora no Rio Grande do Sul e minhas netas o adotaram como vovô. A vida se refaz.

É difícil, mas tenho a impressão que há certa confiança e abertura para as coisas possíveis na vida. Acho que isso ainda tem a ver com o chão da minha infância.

Mas por outro lado, os homens da minha vida (pai, maridos) foram sempre muito importantes, me empurraram pra frente e para cima. Não conheci o homem grosseiro, boçal, que quer me intimidar, me dominar. Tenho do masculino uma visão mais positiva do que em geral as mulheres têm.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.

Comentários









Últimas entrevistas

+ Mais entrevistas

Meu Malvado Favorito (D) Animação
Dublado