Multimídia Entrevistas

26/03/2010

Luiz Ruffato: o escritor da classe operária


O escritor mineiro Luiz Ruffato, nasceu em Cataguases, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira. Ao longo de sua batalha na vida, Ruffato foi, nesta ordem: pipoqueiro, caixa de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico e gerente de lanchonete. Nesta entrevista, Luiz conta como driblou os obstáculos que encontrou no caminho até abraçar a profissão de escritor à qual estava destinado desde sempre.

Nascido em 1961, ele publicou entre outros, “Os sobreviventes”, em 2000, ganhador do Prêmio Casa de las Américas, de Cuba, “Eles eram muitos cavalos”, em 2001, também lançado na Itália, França e Portugal e “De mim já nem se lembra”, em 2007. A partir de 2005, iniciou uma série de cinco volumes, intitulada “Inferno provisório”, que tenta compor a história da industrialização do Brasil, a partir do ponto de vista do trabalhador urbano. Destes, já saíram Mamma, sono tanto felice (também lançado na França), “O mundo inimigo”, “Vista parcial da noite”, “O livro das impossibilidades” e “Estive em Lisboa e lembrei de você”, pela Companhia das Letras.

Luiz Ruffato é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Antes de se tornar escritor você já foi nesta ordem: pipoqueiro, caixa de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista e gerente de lanchonete. Conta pra nós um pouco da sua vida e dos motivos que te levaram a passar por tantas profissões.

Luiz Ruffato: A variedade de profissões foi mesmo em função da necessidade de ajudar em casa. Aos seis anos, comecei a ajudar meu pai no carrinho de pipoca.

Depois, fui trabalhar como caixeiro de um botequim e, em seguida, como balconista de um armarinho, o Bazar Leitão. Trabalhei também como operário têxtil numa fábrica de algodão hidrófilo.

Só que, em determinado momento, minha mãe me chamou a atenção. Segundo ela, aquelas profissões não iriam me levar a lugar nenhum. Era preciso fazer alguma coisa que realmente me desse futuro.

Meus pais sempre incentivaram muito o estudo, então fui para o SENAC e fiz tornearia mecânica. Como torneiro, fui morar em Juiz de Fora e finalmente entrei na universidade.


Lacerda: Luiz, conta para nós como foi parar em suas mãos o primeiro livro que você leu.

Ruffato: Sempre havia estudado a noite, para poder trabalhar durante o dia, e surgiu o convite para estudar a 7ª série no colégio Cataguases, onde estava a classe média da cidade. Lá, tive que estudar de manhã, e realmente não consegui me adaptar. Era um pessoal muito diferente de mim.

A bibliotecária da escola, me vendo dentro da biblioteca para fugir daquela situação extremamente constrangedora de adaptação, virou um dia e falou: ‘meu filho, venha aqui. Leve este livro e leia’. Não sei por que cargas d’água ela me deu o livro.

Chegando em casa, meu pai viu aquele livro em cima da mesa e perguntou bravo: ‘o que é isso aqui menino? O que este livro está fazendo aqui?’ Respondi: ‘foi a dona da escola que me mandou ler’. Então ele disse que se haviam mandado, eu teria que ler.

Só que esse livro me causou um problema muito grande: eu tive febre. É curioso - Cataguases é uma cidade muito quente e a história se passava em um lugar onde a temperatura ficava em 10º abaixo de zero. Cataguases era pacata, o livro falava sobre o massacre de 200 mil judeus durante a segunda guerra mundial.

Só tinha saído de cataguases duas vezes na vida. E o livro se passava em lugares em que não sabia nem pronunciar o nome. Também não sabia pronunciar o título ou muito menos o nome do autor. Aquilo me causou um impacto tão grande que passei mal.

Quando fui devolver o livro para a bibliotecária, ela entusiasmada perguntou: ‘você leu o livro?’ Com a minha resposta afirmativa, logo me entregou outro. Aquele ano foi um inferno na minha vida, para cada livro lido ela me dava um outro para ler.

Quando chegou o final do ano, sai do colégio e perdi esse contato que com a literatura, que só retomei muito tempo depois.


Lacerda: A certa altura você deixou Cataguases e foi estudar em Juiz de Fora sem saber que curso iria fazer. O que te levou a escolher o curso de Comunicação?

Ruffato: No final de 1977, estava conversando com amigos em Cataguases. Eles falaram que estavam indo para Juiz de Fora procurar emprego e perguntaram se não queria ir com eles.

Chegando lá, fomos morar em uma casa em construção, mas meus amigos não aguentaram a barra e voltaram para Cataguases. Eu continuei em Juiz de Fora, até por falta de opções - estava estudando a noite e trabalhando durante o dia em uma oficina mecânica.

Durante esse ano, acabei tendo contato com algumas pessoas que falavam: ‘você é um cara inteligente, porque não faz um curso na universidade?’.

Pensei: ‘nem sei o que é universidade ou quais são os cursos’. Um dia, consegui a relação dos cursos da universidade. Fui olhando a lista: ‘medicina não’. Para mim médico era coisa de gente rica. ‘Engenharia muito menos’.

Resolvi então que deveria fazer algo relacionado com a minha profissão (torneiro mecânico). Mas, de repente, parei em um curso que se chamava comunicação. Pensei: ‘é isso ai’.

Para mim, comunicação tinha a ver com coisas de tecnologia, telecomunicação, etc. No fim do ano, prestei vestibular para comunicação, na época não era tão disputado como hoje, e acabei passando.

O problema é que descobri que a profissão não tinha nada a ver com a ideia que eu tinha. Só que não havia como voltar, então, logo que comecei o curso, procurei saber o que fazia um cara formado em comunicação.

Explicaram que era o jornalista, que trabalhava nos jornais. ‘Então vou procurar um jornal aqui de Juiz de Fora’, decidi. E logo nos primeiros dias de aula já comecei a trabalhar como jornalista em um jornal que nem existe mais. Ou seja, a minha escolha não foi escolha.


Lacerda: Que motivos te fazem achar que estamos vivendo o melhor momento da nossa literatura?

Ruffato: Nós tivemos uma série de momentos importantes na literatura brasileira. Diria a década de 50, durante o governo Juscelino, quando houve uma explosão não só na música, mas na literatura também. Só em 1956 foram publicados quatro ou cinco livros definidores da literatura brasileira.

Depois tivemos o chamado ‘boom’ da década de 70, de outra natureza, mas também foi um momento muito interessante. No entanto, nenhum destes momentos teve o que está acontecendo agora.

Temos hoje um mercado que tem aceitado a publicação de literatura brasileira. Várias editoras têm no catálogo vários autores brasileiros, inclusive autores jovens, que estão entrando agora no mercado.

Temos também uma equivalência entre homens e mulheres bastante interessante. Até a década de 70, eram primordialmente homens. Hoje acredito até que essa equivalência esteja pesando um pouco mais para o lado das mulheres.

Nos últimos anos, vivemos o período mais longo de democracia da nossa história, que também permitiu a entrada no mercado de autores negros, homossexuais, de periferia.

Ou seja, não é necessário se esconder atrás de nenhum rótulo para participar deste mercado. Temos uma grande quantidade de títulos sendo lançados anualmente, estamos criando um publico leitor e também cresce o número de pesquisadores estudando a literatura contemporânea. É um momento realmente único.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.

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