Fato em Foco

02/07/2012

Mantendo vivo o grito da China por liberdade

Liu Xiaobo, Nobel da Paz, publica novo livro em que recorda o massacre na praça Tiananmen.

Por Marco Lacerda*

  • Praça Tiananmen, Pequim, 1989: repressão e massacre (AFP)
  • Liu Xiaobo: cadeira vazia na entrega do Nobel da Paz em Oslo (Reuters)

Havia quatro décadas que Liu Xiaobo trabalhava para despertar as consciências e inculcar em seus compatriotas chineses – preocupados apenas em ficar ricos – a necessidade de pensar e de se defender do sistema ditatorial em seu país. Foi quando, em 2010, a ele foi outorgado o Prêmio Nobel da Paz. Só então seus textos – como ativista e escritor – começaram a ser traduzidos no Ocidente. “Não tenho inimigos, não conheço o ódio” foi o primeiro deles.

Agora chegam – primeiro em espanhol, claro – suas “Elegias de 4 de Junho”, com as quais Xiaobo pretende manter viva a memória do massacre ocorrido em 1989 na Praça Tiananmen, em Pequim, e homenagear familiares que, além de terem perdido pessoas queridas durante as manifestações, ainda têm de suportar “uma perseguição brutal e a indiferença de um estado totalitário que engendrou uma aminésia social coletiva”, segundo afirma o Dalai Lama no prefácio escrito especialmente para o livro.

Um dos signatários da Carta 08 que ele mesmo escreveu – manifesto a favor da democratização e da reforma política na China – Liu segue encarcerado desde sua detenção em 2009. Foi acusado pelo regime de “incitar a subversão contra o Estado” e condenado a 11 anos de prisão. O governo não lhe permitiu – tampouco a seus familiares e amigos – que fosse à Noruega receber o prêmio.

Cadeira vazia

Pela primeira vez em 75 anos, nem o premiado com o Nobel da Paz nem qualquer representante dele teve permissão para receber a láurea em seu nome. Se em 1935 o regime de Adolf Hitler impediu o pacifista Carl Von Ossietzky, que estava internado num campo de concentração, de fazê-lo, em 2010 foi a vez do regime comunista de Pequim imitar o gesto nazista.

Uma cadeira vazia e um imenso pôster do premiado, sempre sorridente, no grande salão da prefeitura de Oslo, onde mais de mil convidados – entre eles os reis da Noruega e centenas de exilados chineses – se acotovelavam, foi o que escapou do controle das mãos de ferro das autoridades chinesas, enfurecidas com a concessão do prêmio a quem consideram “um criminoso separatista que pretende derrubar o governo”. Como se não bastasse, o governo comunista bloqueou os circuitos internacionais da web e tudo o que dizia respeito à grande homenagem ao cidadão chinês.

A Carta 08

Liu, de 54 anos, foi condenado à prisão por liderar a redação da Carta 08, um manifesto pacífico publicado em dezembro de 2008, pedindo o fim do governo chinês de partido único, além de reivindicar um sistema judicial independente, liberdade de reunião, religião e imprensa e a instauração de uma democracia legislativa.

A carta aberta provocou calafrios em Pequim por seu conteúdo e por ser assinada por 300 intelectuais, entre eles acadêmicos, advogados, jornalistas e artistas do mundo inteiro. O documento é inspirado na Carta 77, redigida na antiga Checoslováquia, que conduziria, em 1989, à Revolução de Veludo, que depôs o regime comunista.

Num espanhol fluente, o presidente do comitê norueguês do Nobel, Thorbjoern Jagland, insistiu que o prêmio não era uma provocação à China e que, como grande potência, “Pequim deve se acostumar a ser questionada e criticada”. Jagland pediu a imediata libertação de Liu Xiaobao “num momento em que o mundo se pergunta se a necessidade de encarcerar um homem por 11 anos pelo simples fato de expressar suas opiniões e dizer como seu país deve ser governado, não deixa clara a grande debilidade do regime”.
Nobel politizado

Os chineses, por sua vez, reagiram afirmando que o Prêmio Nobel foi politizado e qualificaram a comenda como uma farsa e um ataque ideológico ocidental, além de não representar as nações em desenvolvimento nem a maior parte do mundo. “Nos opomos totalmente a qualquer país ou pessoa que use o Prêmio Nobel da Paz para interferir nos assuntos internos da China ou violar a soberania legal do país”.

Jagland usou palavras positivas para a China, por seu grande avanço econômico, capaz de tirar da miséria milhões de pessoas, mas acrescentou: “Se um país com tais dimensões pode desenvolver uma economia de mercado sem violar os direitos civis, isso teria grande impacto no mundo, caso contrário poderia produzir graves crises sociais e econômicas com conseqüências em todo o mundo”, advertiu

O discurso de Liu

Na ausência do premiado, a atriz norueguesa Liv Ullman leu para os presentes à cerimônia a declaração do de Xiaobo, diante de um tribunal, em 2009, antes de ser preso, que leva o título “Um dia seremos banhados pelo sol da liberdade”:

- Cheio de otimismo, olho para a frente, para a chegada de uma China livre. Porque não existe freio capaz de por fim à busca humana da liberdade. Então, a China se converterá em uma nação governada pela lei, na qual os direitos humanos reinem de forma suprema.

Enquanto a cerimônia era celebrada em Oslo, em Pequim a polícia aumentava a pressão sobre os dissidentes e simpatizantes do premiado. A mulher dele, Liu Xia, continuava em prisão domiciliar à qual foi condenada desde o anúncio da premiação do marido. Pelo menos 200 pessoas – entre as quais familiares, advogados e ativistas – permanecem mantidos sob forte vigilância policial ou foram afastados de Pequim, segundo informações da Anistia Internacional.

Os telefones celulares de Liu Xia e dos advogados do Prêmio Nobel da Paz estão fora de serviço. Depois de muitas tentativas, finalmente em contato com seu escritório, uma voz grave respondeu: “Não posso falar, a polícia está aqui”.

Pequim, 1989: Massacre na Praça da Paz Celestial. Veja o vídeo. 

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total



Comentários








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Leopoldo | 03/07/2012 00:45
Li e reli este artigo, ontem. Me surpreende q não haja comentários de outros leitores, já q este é um assunto q diz respeito a todos nós. Tudo bem. Seja como for, o q esperam os leitores deste site? Que haja outro atentado à liberdade como o q houve em Tiananmen? O q acontececeu na Praça Celestial em 89 sempre será indecente, imoral, condenável por todas as leis relacionadas com os direitos humanos. E aí? Quem está batendo na sua porta? Olha lá q batem, se é q já não estão entrando, olha na sala, na cozinha, no banheiro no quarto...
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