Fato em Foco
Homofóbico? Talvez você seja gay.
Para ficarmos apenas no âmbito internacional – particularmente nos EUA, onde tudo abunda – nos últimos tempos veio à tona uma sucessão de escândalos, o mais ruidoso deles envolvendo o líder evangélico americano Ted Haggard que acabou vendo-se forçado a renunciar ao cargo depois de ser visto entrando num motel de beira de estrada acompanhado de um garoto de programa. Logo estourou o caso Larry Craig, senador americano e homofóbico de carteirinha, flagrado recentemente em cenas nada pudicas num banheiro público masculino de Washington. Quase ao mesmo tempo, Glenn Murphy Jr., líder da ala jovem do Partido Republicano, agressivo oponente do casamento entre pessoas do mesmo sexo, foi acusado de atacar sexualmente um companheiro de militância depois de uma noite de bebedeira.
Uma das teorias sobre o assunto é que carências homossexuais, quando reprimidas por causa de vergonha ou medo, podem se manifestar em forma de homofobia. Sigmund Freud uma vez descreveu esse tipo de comportamento como uma guerra entre sentimentos represados e a necessidade inadiável de extravasá-los. O próprio Ted Haggard endossou essa idéia ao se desculpar por sua retórica anti-gay. “Sempre agi dessa forma veemente por causa da guerra interior que enfrentei durante toda a minha vida”.
De fato, esta é uma teoria de peso que agora ganha respaldo científico. Numa edição recente do Journal of Personality and Social Psychology, o psiquiatra Richard M. Ryan, da Universidade da California, afirma que dispõe de evidências de que “a homofobia, pelo menos em parte, é conseqüência da supressão da atração por pessoas do mesmo sexo”.
“Nossa investigação descreve estudos feitos nos Estados Unidos e Alemanha, envolvendo 784 estudantes universitários. Os participantes qualificaram sua orientação sexual numa escala de dez pontos que oscila entre comportamentos gay e heterossexual”, explica Ryan. “Os estudantes foram submetidos a um teste controlado por um computador, com o objetivo de determinar sua verdadeira inclinação sexual. Durante o teste eram mostradas aos participantes imagens e palavras indicativas de hetero e homossexualidade (fotografias de casais gays e heterossexuais, as palavras homossexual e gay e outros símbolos) e tinham que organizá-las nas categorias apropriadas o mais rápido possível. O computador monitorava a reação de cada um”.
O que aconteceu, segundo o psicólogo, foi que antes de cada palavra ou imagem aparecer, a palavra “eu” ou “outro” era projetada na tela do computador por brevíssimos décimos de segundo – tempo suficiente para o participante processá-la subliminarmente e para vê-la conscientemente
Repressão e intolerância
De acordo com essa teoria, conhecida como associação semântica, quando a palavra “eu” precede palavras ou imagens que refletem a orientação sexual de uma pessoa (por exemplo, imagens heterossexuais para pessoas heterossexuais) ela classificará as imagens nas categorias corretas mais rápido do que quando “eu” precede palavras e imagens que são incongruentes com sua orientação sexual (por exemplo, imagens homossexuais para pessoas heterossexuais). Essa técnica, já experimentada para detectar preconceito racial, é capaz de diferenciar com segurança indivíduos que se auto-identificam com heterossexuais daqueles que se auto-identificam como gays, lésbicas ou bissexuais.
Usando essa metodologia, a equipe do psiquiatra Richard M. Ryan conseguiu identificar um subgrupo de participantes que, apesar de se auto-identificarem como altamente heterossexuais, revelaram índices insuspeitos de atração pelo mesmo sexo – isto é, eles associaram “eu” com palavras e imagens ligadas a gays mais rápido do que associaram “eu” com palavras e imagens associadas a heteros. Mais de 20% dos participantes que se auto-descreveram como pessoas altamente hetero mostraram tal discrepância.
Curiosamente, esses indivíduos discrepantes revelaram-se favoráveis a políticas públicas anti-gays; confessaram ser a favor da aplicação de penas severas contra gays, mesmo em caso de delitos irrelevantes. “Os resultados da nossa investigação sugerem que pessoas que se opõem à homossexualidade disfarçam tacitamente alguma atração pelo mesmo sexo”, afirma Ryan.
O que leva a esse tipo de repressão? “Constatamos que, entre os participantes, os que vinham de famílias tolerantes e amorosas tinham mais contato com sua orientação sexual implícita e eram menos vulneráveis à homofobia. Já os indivíduos cujas identidades sexuais estão em conflito com sua atração sexual implícita, em geral vinham de famílias controladoras, pouco tolerantes e com preconceito evidente contra homossexuais”.
Para Ryan, é importante explicitar o óbvio: nem todos os que assumem uma militância anti-gay sentem secretamente atração pelo mesmo sexo. Mas pelo menos alguns dos que repudiam a homossexualidade são indivíduos em luta interna com facetas de si mesmos. Na maioria dos caos pesquisados são pessoas que foram vítimas de opressão e rechaço em sua formação como seres humanos. O preço tem sido alto para os alvos da perseguição anti-gay, mas também para os que a praticam. “É bom lembrar que todos os envolvidos merecem a nossa compaixão”, conclui Ryan.
"Tonight", canção gay emblemática, com George Michael, há anos perseguido e difamado por ser homossexual. Ouça.
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Comentários
A Igreja tem sido impiedosa com a humanidade, com seus valores intransigentes, suas verdades e menitiras. Desde que descobri que minha filha é gay essa intransigência ficou ainda mais dura. Amo a minha filha sobre tudo e todos.Como culpá-la por algo que veio com ela a este mundo? Como continuar sendo católico e viver essa contradição?
Caros irmãos, um pouco de leitura faz bem a qualquer um de nós. Sugiro, que antes de qualquer afirmação, procurem ler os documentos da Igreja Católica Apostólica Romana, pois, só é possÃvel amar e seguir aquilo que se conhece. Me desculpem irmãos, mas realmente vocês não poderão continuar sendo católicos... afinal, só é possÃvel continuar a ser aquilo que já se foi um dia.
Patricia - São Paulo, bom q vc trouxe o tema à tona. Como continuar sendo católico, professando uma fé com (alguma) convicção qdo essa fé te joga contra seu filho/a impiedosamente, sem espaço para o diálogo e o entendimento. Já não sei mais como ir à Igreja, aos domingos, sem fazer papel de otário.
CHEGA! BASTA DE HOMOFOBIA! Sou pai de um filho de 15 anos HOMOSSEXUAL. Que bom que ele carinhosamente me contou. Minha vida perderia todo e qualquer sentido sem meu filho gay. Não o eduquei para ser gay. Ele é gay, sempre foi, desde o útero que o pariu. Pra quem luta contra essa realidade, só posso dizer o seguinte: ENCARE, SEM MEDO. É SEU FILHO!!!
Eu já havia pensado sobre o assunto sem critério científico, óbvio, mas por uma espécie de indução lógica, de que uma pessoa que nega veementemente uma conduta haveria por trás dessa militância, amparando no outro, uma provável repulsa sobre si mesmo. Não via muito fundamento, curiosidade somente. "... é importante explicitar o óbvio: nem todos os que assumem uma militância anti-gay sentem secretamente atração pelo mesmo sexo. Mas pelo menos alguns dos que repudiam a homossexualidade são indivíduos em luta interna com facetas de si mesmos. " Quando li a afirmação acima, apesar de nada conclusivo, parece fazer sentido. A idéia de sublimação, na qual coordenamos velhos "instintos" para reprimirmos "velhas" condutas, no caso gay parece ter efeito contrário e, ainda, posso estar cometendo o erro do mau uso do conceito, mas, de forma geral, a negação a meu ver está mais para auto-condenação através do outro do que a repulsa da conduta do outro em si. Dit
Evandro, pois é. Nem todos os q assumem postura anti-gay são anti-homossexuais. É fato. O que conta neste caso é consultar a própria consciência, o coração, pra saber em q chão estamos pisando. Consulte o seu...
Evandro, na minha modesta opinião, baseada no que vejo, ouço e sinto, seu comentário é o mais pertinente entre os muitos estampados aqui. Trocando em miúdos: onde há fumaça, há fogo.