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Fato em Foco

23/04/2012

Cicatrizando feridas da guerra com teatro

A saga do jovem Teatro da Liberdade e sua luta sem trégua pela paz no Oriente Médio

Por Marco Lacerda

  • Juliano Mer Khamis: assassinado, em 2011, na porta do Teatro da Liberdade (Divulgação)
  • Integrantes do Teatro da Liberdade durante ensaio em Nova York em 2012 (Reuters)
  • "Alice no país da maravilhas", última montagem do grupo. (Divulgação)
  • Juliano Mer Khamis (1958-2011): "O teatro abre caminhos para que as pessoas assumam o controle do seu destino". (AFP)

No fim de 2011, quatro estudantes da Escola Teatro da Liberdade, em atividade no campo de refugiados de Jenin, no West Bank (território palestino ocupado em 1967 por Israel) faziam uma leitura dramática da peça "O Despertar da Primavera", que faria parte dos exames de graduação do grupo. De repente, ouvem-se cinco tiros disparados na porta da escola. Ao correrem até a entrada do prédio, os formandos encontraram o fundador do grupo, Juliano Mer Khamis, se esvaindo em sangue na calçada. Não houve tempo sequer para a chegada de uma ambulância. Juliano morreu minutos depois.

O homem mascarado que alvejou Mer Khamis, um ator e diretor de 52 anos, filho de mãe israelense e pai palestino cristão, nunca foi encontrado. Um mês depois, os estudantes, mesmo em estado de choque, se reuniram e fizeram uma adaptação improvisada, em árabe, de "Esperando Godot", o clássico de Samuel Beckett, no teatro da Universidade de Columbia, em Nova York.

“Até hoje não acredito no que aconteceu porque ele não era apenas um professor para nós, era pai, diretor, amigo”, diz, em entrevista ao New York Times, Maryam Abu Khaled, 20 anos, que interpreta o papel de Vladimir na atual montagem de "Esperando Godot", que viaja pelas principais cidades do mundo em missão pacifista. “Juliano era o nosso mestre, somos as únicas pessoas que conhecem sua mensagem e podemos transmiti-la a outros”.

Teatro pela paz

Ao saber do assassinato brutal, Udi Aloni, um judeu de 51 anos, pintor, escritor, cineasta e ativista político ofereceu ajuda à troupe agora sem liderança. Ele fora amigo de Juliano e os dois estavam trabalhando no roteiro de um filme, mas Aloni não tem nenhuma experiência em teatro. “Os estudantes perderam a confiança em si mesmos com o assassinato do seu diretor. Mas, mesmo sem ao preparo necessário, tomei como minha a responsabilidade de trabalhar com eles até a graduação, como um processo de cura, em sinal de fidelidade à minha amizade de anos com Juliano”, diz Aloni, um cidadão israelense-americano, responsável pelo controvertido filme “Perdão”, de 2006. Com a instabilidade da situação no West Bank, o cineasta preferiu transferir os ensaios do grupo para Ramalá, pequena cidade vizinha.

Depois dos funerais de Juliano, os alunos decidiram que seu projeto de graduação deveria refletir preocupações mais amplas em termos filosóficos, psicológicos e políticos, pelo menos mais amplos dos quer eram oferecidos na montagem de "O Despertar da Primavera", a peça de Frank Wedekind, do século 19, sobre sexualidade juvenil. Godot pareceu-lhes um texto mais adequado à situação que a companhia vive. 

“Todos nós atravessamos a vida esperando por algo e temos objetivos a serem alcançados”, diz Batool Taleb, de 22 anos, que representa Estragon na peça de Samuel Bechett. “Na Palestina esperamos pela liberdade, na nossa escola Teatro da Liberdade esperamos alguma coisa acontecer que mude e cenário desse conflito que parece não ter fim”, diz a jovem atriz

A atual montagem de “Esperando Godot” rompe com várias convenções, começando pela escolha pouco convencional de mulheres para papéis masculinos, como os de Vladimir e Estragon. Beckett, quando em vida, e seus herdeiros sempre se opuseram a tais modificações e chegaram a abrir processos judiciais para impedi-los, mas um dos objetivos do Teatro da Liberdade é demolir a tradição patriarcal árabe, estimulando mulheres a se engajar nos conflitos do Oriente Médio. Khaled e Taleb são os primeiros integrantes de sexo feminino a participar do grupo. Além disso, o garoto sem nome que faz parte do elenco, está sendo representado por Milay, a filha de 11 anos do diretor assassinado.

A morte como vizinha

“Temos que preparar dois ou três atores para cada papel, pois sabemos que qualquer um de nós, a qualquer momento, pode ser morto ou seqüestrado pelas forças de segurança israelenses ou palestinas”, explica Aloni. Por exemplo, o jovem que faz o papel do Pozzo foi detido para interrogatório, sob suspeita de envolvimento no assassinato de Juliano Mer Khamis e acabou encarcerado por um mês pelas autoridades israelenses.

Juliano Mer Khamis, que fez um dos papéis em “A Garota do Tambor”, filme baseado no romance de John le Carré, além de várias atuações em filmes israelenses, fundou o Teatro da Liberdade em 2006, em homenagem a sua mãe, uma comunista que patrocinou um grupo de teatro infantil em Jenin, nos anos 80. Apesar de ter participado, como paraquedista, das forças de defesa de Israel, Mer Khamis sempre fora um crítico contundente da política israelense de ocupação dos territórios árabes e via o Teatro da Liberdade como uma forma de despertar o compromisso com a ação não-violenta entre jovens palestinos. “Ele acreditava no teatro como revolução, resistência. No campo minado onde o fazemos, teatro não é show business, é instrumento de guerra”, afirma o ator Moe´men Switat, de 22 anos, nascido no campo de Jenin.

“Juliano Mer Khamis sempre foi uma pedra no sapato dos poderes que ditam o destino do Oriente Médio. Ele era um palestino-judeu em Israel e um palestino-judeu na Palestina”, diz emocionado seu sucessor no comando da Teatro da Liberdade. “Era um amigo, um homem extraordinário que aprendeu a fazer teatro no mais difícil e improvável contexto político, cultural e econômico. Porque amava o teatro, acreditava que o teatro é capaz de abrir caminhos para que as pessoas assumam o controle do seu destino”, conclui Udi Aloni. 

"Milonga del moro judio" (Palavras de um muçulmano-judeu), com Jorge Drexler. Veja o video:

 

Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.



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