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Super Dom Entrevistas

12/02/2009

Ronaldo Fraga: moda com humor, ousadia e crítica social


Humor. Ousadia. Crítica social. Essas têm sido as constantes nas coleções do mineiro Ronaldo Fraga, de 41 anos. Temporada após temporada, Ronaldo dedica-se a contar histórias absurdas sobre gente comum.

Ele se formou em estilismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, estudou em Nova York e na Parsons School de Londres. Ele já ganhou o prêmio de Estilista Revelação e sua coleção inspirada na estilista Zuzu Angel foi indicada como a melhor coleção feminina do ano.

Ronaldo Fraga é o entrevistado desta semana.

Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.

Marco Lacerda: Ronaldo, fale um pouco sobre a sua trajetória como estilista e criador. A partir de que momento você descobriu que a sua vocação era a moda?

Ronaldo Fraga: Quando descobri essa vocação, já trabalhava com negócios há um bom tempo. Foi muito engraçado, sempre gostei de desenhar. Fazia todos os cursos de desenho - para desenhar porca de parafuso ou qualquer outra coisa - contanto que fosse de graça.

Um dia, uma vizinha apareceu com uma pasta cheia de desenhos de moda e achei aquilo tudo muito interessante. Ela falou: ‘estou fazendo esse curso no Senac, é gratuito’.

Na época, era adolescente e falei: ‘também vou fazer’. Foi super divertido. Era 1984, tempo em que não existiam escolas de moda. Aliás, se você falasse que alguém ia fazer curso superior de moda, as pessoas mandavam te prender.

Na sala, havia aquelas ‘senhorinhas’ de cabelo azul claro, que eram modelistas, costureiras, e aprendiam a desenhar para pode transcrever o figurino da cliente.

A outra metade era composta por travestis, que estavam ali para aprender a desenhar fantasias de carnaval. E o curso foi super divertido, fiquei, desenhei, tive a maior nota da sala.

Terminado o curso, não tinha nenhuma pretensão de trabalhar com moda, era só para passar o tempo e aprender a desenhar.

Mas o Senac tinha um setor de colocação profissional - como imagino que tenha até hoje. Eles me ligaram logo na semana seguinte e me ofereceram um emprego numa loja de tecidos. Como adorava desenhar, pensei: ‘o quê? Vou desenhar o dia inteiro e ainda vou receber por isso? Vou estar no céu’.

Mas não foi bem assim. Cheguei para trabalhar e, imediatamente, quando abriram as portas, havia ali umas 30 mulheres: gordas, baixas, altas, magras, de tudo quanto é tipo, cada uma com sua peça de tecido, querendo roupa para o batizado, para o enterro, para o velório, para o casamento, para seduzir, para separar (risos).

Nesse momento, entendi que não sabia nada de moda. Sabia só desenhar. Ao contrário da maioria dos estilistas, não tinha essa história da mãe ser costureira, das irmãs trocando de roupa, ou ter brincado de boneca para facilitar o caminho.

Então tentava tirar da minha memória e não vinha. Foi uma coisa muito engraçada, que me lembrou aquela cena da Fernanda Montenegro na Central do Brasil, escrevendo cartas - era mais ou menos o que eu fazia. Tentava tira a roupa da fala das pessoas. Na verdade, elas que me entregavam o que queriam vestir.

Esse tempo foi fundamental para o meu conhecimento sobre tecidos. Até hoje, lembro do cheiro do linho ao ser rasgado, do cheiro do algodão, do barulho do tafetá de seda pura no ar. Tenho muita saudade, acho isso muito poético. Saudade porque, inclusive, as lojas de tecido (da forma como eram) estão acabando.


Marco Lacerda: Outro dia a consultora de moda Glorinha Khalil estava na TV ditando regras de moda para o povo. Ela dizia coisas do tipo, ‘os cachecóis estão na última moda’, ‘a moda trouxe de volta o jeans de cintura alta’ ou então ‘a moda nos dá uma colher de chá e permite que usemos tal e tal coisa’. Minha pergunta é a seguinte, Ronaldo: quem é a moda? Quem é essa autoridade com poderes quase divinos de decidir o que devemos ou não devemos usar? E que mantém as pessoas escravas de suas ordens?

Ronaldo Fraga: Temos, neste caso, duas indústrias fortes: a indústria da roupa e a indústria da moda. A indústria da roupa fica o tempo inteiro de olho naquilo que as indústrias estão precisando consumir. Determinada anilina, que está encalhada, determinado fio, para o qual é preciso estimular uma demanda.

A indústria da moda não. Ela tem um olhar sobre o tempo que estamos vivendo. Adoro citar uma crônica do Drummond quando falo sobre este assunto. Quando o aproximei da moda (fiz uma coleção inspirada nele), as pessoas me perguntavam: ‘o que Drummond tem a ver com moda? Uma pessoa que vestiu quatro cores a vida inteira (o bege, o marinho, o cinza e o preto), o que ele tem a ver com moda?’

Drummond foi um grande observador do tempo. Para falar de moda, você tem que estar de olho no que está acontecendo. E ele tem uma crônica deliciosa, escrita em 1922, que dizia: ‘para esta estação, a moda nos traz péssimas notícias. Os comprimentos estarão mais longos e seremos privados das lindas pernas das moças no bonde ao fim da tarde. Mas nem tudo está perdido, porque todas as vezes que descem os comprimentos dos vestidos, descem também as alturas dos decotes’.

Ele tinha autoridade para falar, e é isso que acontece com a moda. Descem os comprimentos, então vamos descer os decotes. Veio a mini-saia e os vestidos mais curtos - os decotes vão ficar mais altos, canoa.

Comprimentos, cachecol, acessórios - tudo isso é fácil de detectar quando você é um observador. Agora, na maioria das vezes, o que a moda vai sinalizar como marca do nosso tempo está num simples botão. Nesse caso, o botão pode funcionar como o pingo no “i”.


Marco Lacerda: Numa certa ocasião você criticou o problema da cópia no mundo da moda. De fato, houve uma época em que se dizia que no Brasil nada se cria, todo se copia. Tinha um fundo de verdade nisso. Eu lembro disso como editor da revista Vogue onde trabalhei muito tempo. Os estilistas viajavam para o exterior a pretexto de conhecer o que estava rolando em diferentes mercados – Londres, Nova York, Tóquio – mas na verdade quando você via a coleções na passarela percebia que eram cópias descaradas do que se fazia lá fora. Isso ainda existe?

Ronaldo Fraga: Ainda existe, a cópia foi instituída em tempos chineses como se fosse algo quase ‘natural’. Uma coisa que é muito urgente - até como valorização do produto de moda feito no Brasil - é a ‘tal da identidade’.

Existem correntes que falam que esta discussão é bobagem, já que estamos em um mundo globalizado. É globalizado para quem já criou um caminho, a alma de um produto. Você sabe exatamente o que esperar do design italiano. Você sabe exatamente o que esperar de um design inglês. Agora, o que esperar de um design de moda brasileiro?

Temos um caminho a ser percorrido até deixarmos para trás essa característica de ‘xerox desfocado’ que é a indústria da moda no Brasil. Já melhorou muito? Melhorou, hoje existe um espaço para a autoralidade, mas as cópias ainda são absurdas.


Marco Lacerda: Tem gente que é cafona até nua. Qual é o cúmulo da cafonice, Ronaldo?

Ronaldo Fraga: O cúmulo da cafonice, para mim, é tentar usar não só a roupa, mas a alma do outro. A coisa não combina com você, mas vem a história: ‘quero ser Gisele Bundchen, a todo custo’. Mas você fisicamente não é Gisele, seu estilo não tem nada a ver, mas você jura que conseguiu pegar aquela piscada do olhar que ela deu na televisão.

Tem muita gente que perde tempo com isso e deixa de construir aquilo que é caro, que leva tempo para ser moldado – o estilo e a autenticidade.

Não importa se a pessoa é perua, não importa se ela é chique, se ela é gatinha. Se ela é autêntica, deixa uma marca por onde ela passa, esse é o caminho. É dessa forma que a pessoa se desvia da cafonice, sem dúvidas.


Marco Lacerda: A gente se veste para sentir-se bem ou para exibir-se para os outros?

Ronaldo Fraga: Deveria ser a primeira opção, mas sem dúvida alguma, o que vem na frente é para exibir-se pros outros.


Marco Lacerda: O que falta à moda mineira para ter mais projeção nacional?

Ronaldo Fraga: A moda mineira já tem projeção. O aval que Minas tem é impressionante. Talvez haja até uma hipervalorização, porque a fama que temos é de produzir roupa extremamente bem feita e sermos extremamente vanguardistas. Penso: ‘gente, quem espalhou essa?’ (risos).

Detesto essa mania de cobrar do poder público, mas acho que o governo, em parceria com a Federação da Indústria, poderia sim dar um passo a frente.

Hoje os nossos impostos são muito altos, tanto em instância estadual como em instância federal. A moda de Minas só não decola porque somos esmagados por eles, como está acontecendo com a moda do país em geral. Adoraria ler uma notícia de linhas de crédito especiais para a área de moda, seria o maior estímulo hoje.


Marco Lacerda: Que eu saiba você é o único estilista brasileiro que procura dar um sentido social à moda que faz. Que papel social você acha que a moda pode ter?

Ronaldo Fraga: A moda é uma mídia, uma ciência ou religião (como queiram chamar) das mais transformadoras. Vivemos em um país em que a mídia espontânea de uma semana de moda só perde para a final de copa do mundo.

Moda é um assunto que tem interessado as classes de A a Z, de todos os sexos. Será que não temos mais coisas para fazer com este instrumento além de falar ‘nesta estação apostei no comprimento X da saia’? Acredito que tem muito mais a ser feito.


Marco Lacerda: Já existe espaço e demanda que justifiquem a criação de um Belo Horizonte Fashion Week na linha dos desfiles que já existem em São Paulo e no Rio?

Ronaldo Fraga: Na linha do Fashion Rio e do São Paulo Fashion Week não. Não tem nem espaço no calendário para isso. Continuo apostando que nós precisamos de eventos que internacionalizem Belo Horizonte e Minas Gerais.

Falei há um tempo atrás do desejo de trazer um evento de moda para Minas, por todo esse aval que o estado tem, mas que esteja atrelado à cultura. A rodada de negócios é necessária, mas paralelamente, faríamos um encontro internacional das escolas de moda. Hoje à noite você seria convidado a assistir um desfile de um estilista japonês na rodoviária de belo horizonte. Que amanhã houvesse um desfile de um belga no mercado central.

Seria um evento que não concorreria com Rio e São Paulo, que já são as vitrines de venda do país. Nem deveriam existir as duas, seria interessante para a moda brasileira que houvesse uma fusão dos eventos. Por exemplo, o verão é lançado no Rio e o inverno em São Paulo.

Belo Horizonte abraçaria muito bem outros tipos de evento, como uma bienal, que discutisse moda sobre todas as possibilidades. A cidade ganharia muito com isso.

Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.



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