Super Dom Entrevistas
30/01/2009
Frei Betto: Igreja e a espiritualidade no mundo atual
Descobrir que a mulher ocupa na Bíblia lugar e importância iguais aos do homem é questionar as igrejas que insistem em reservar aos homens as funções de poder. Você sabe de quem é essa frase?
A frase é de Carlos Alberto Libânio Christo ou simplesmente Frei Betto. Aos 64 anos, Frei Betto continua a ser uma das vozes mais ativas pela justiça social na América Latina.
Foi preso duas vezes pela ditadura militar dos anos 60 e 70, mas nunca escondeu sua fidelidade à teologia da libertação, até hoje condenada pelo Vaticano. Nesta conversa, Frei Betto fala sobre a situação da Igreja Católica e da espiritualidade no mundo atual.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Frei Betto, o senhor afirma que a cultura neoliberal teme o idealismo dos jovens e que o melhor antídoto para isso seria a espiritualidade. Mas como depositar esperança na espiritualidade num mundo onde os jovens cada vez mais se distanciam de tudo o que diz respeito ao espiritual?
Frei Betto: Nós estamos vivendo um mundo de desencantamento. Toda aquela efervescência religiosa, aquele clima de valores e o sentimento de pecado foram desaparecendo.
Por outro lado, curiosamente, há setores que cada vez mais buscam na religião um ponto de apoio para a sua vida e para sua moral, mas de uma maneira desvinculada das questões sociais e políticas.
Sempre lembro duas coisas: primeiro, a espiritualidade é essencial a cada um de nós, seres humanos. A pessoa pode não saber como trabalhá-la. Nesse caso, corre até o risco de projetá-la onde não deve. Alguns têm idolatria pelo próprio carro, outros por uma figura política.
Por outro lado, nós temos hoje uma necessidade muito forte da questão ética. Ou seja, nós saímos do mundo onde os valores eram regidos pelo conceito de pecado. Pecado é aquilo que vem de fora para dentro. É a minha igreja, a minha denominação religiosa que me diz o que é ou não pecado.
Uma vez que isso vai desaparecendo, nós precisamos de uma coisa mais interiorizada que se chama ética, que vem lá dos gregos, de Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas ainda não houve tempo suficiente para fazemos essa travessia.
Um exemplo é a deslavada corrupção que vemos no Brasil e no mundo inteiro, onde as pessoas seguem a linha ‘cada um por si Deus por ninguém’.
Passam o outro para trás, enganam, iludem. É o sujeito que atropela na rua e não socorre, que não respeita a faixa de pedestre, joga papel pelo vidro do carro, se gaba de ter recebido troco a mais do caixa do supermercado e sai feliz pela rua. Enfim, isso é safadeza bruta, isso é a deterioração do ser humano, dos nossos valores.
Creio que as escolas, as famílias e as igrejas têm um papel muito importante, mas, sobretudo o Estado - ele deveria ser o grande indutor da formação ética da nação.
Marco: Do grupo de dominicanos presos pelo regime militar porque só Frei Tito foi tão barbaramente torturado?
Frei Betto: O Governo Médici não esperava que a prisão de um grupo de frades provocasse tanta repercussão, sobretudo no exterior. O processo era muito frouxo diante da repercussão que teve. Era preciso ‘engrossar esse caldo’. Fazer com que os frades viessem a confessar, por exemplo, participação em expropriações bancárias e ações armadas.
Por coincidência, foi preso o homem que, a pedido de frei Tito, conseguiu o sítio para realização do congresso da UNE em 1968.Em conseqüência, Tito foi o primeiro de todos nós a passar pelo rolo compressor do centro de torturas do exército aqui em São Paulo. Depois, cada um de nós também passaria pelo mesmo.
Mas como Tito, não suportando três dias de intensas torturas, veio a cortar a artéria do braço esquerdo com uma gilete, tiveram que levá-lo ao hospital militar. Era grande o medo da repercussão de um padre assassinado nas masmorras da ditadura militar brasileira, isso seria um escândalo mundial com reações do Vaticano. Então, o sacrifício do Tito evitou que nós passássemos pelo mesmo.
Marco: Durante o pontificado de João Paulo II, quase 150 teólogos foram silenciados pela Igreja Católica por defenderem idéias renovadoras que batiam de frente com o Vaticano. Como o senhor vê esse tipo de cerceamento da liberdade?
Frei Betto: Há duas coisas que eu lamento muito na Igreja Católica. Estou nela, portanto tenho o direito de criticá-la, porque faço isso com muito amor e desejo de que ela seja cada vez mais fiel à Jesus e ao evangelho.
Primeiro: o Estado do Vaticano é um dos raríssimos do planeta que até hoje não assinou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi proclamada em 1948.
Segundo: é o único tribunal do mundo (sem considerar ditaduras) que não permite ao réu o direito de defesa. Segundo a lógica do Vaticano, não se pode pressupor que ele, o acusador, esteja equivocado.
Não faz sentido a Igreja hoje punir teólogos. É preciso dialogar com eles, convocá-los, tratá-los como filhos e não como inimigos. A Igreja é uma família. Não se diz que ela é mãe e mestra? Então, uma mãe ao discordar de um filho não o põe pra fora de casa.
Marco: A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo segue sendo motivo de muita polêmica. O senhor acha que o Brasil está pronto para aprovar uma lei dessa natureza, como já aconteceu em vários países?
Frei Betto: Acredito que sim. Estou convencido de que a tendência à homossexualidade é genética, da natureza, como a ciência vem apurando.
Segundo, não vejo porque privar essas pessoas de uma relação amorosa e marginalizá-las, levando-as a situações extremamente dolorosas, de segregação, discriminação e preconceito.
Não vejo nenhuma razão para essa atitude anacrônica, arcaica e preconceituosa de não dar à pessoa que tem uma tendência homossexual, como se dá àquele que tem uma tendência heterossexual, pleno direito de cidadania.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
A frase é de Carlos Alberto Libânio Christo ou simplesmente Frei Betto. Aos 64 anos, Frei Betto continua a ser uma das vozes mais ativas pela justiça social na América Latina.
Foi preso duas vezes pela ditadura militar dos anos 60 e 70, mas nunca escondeu sua fidelidade à teologia da libertação, até hoje condenada pelo Vaticano. Nesta conversa, Frei Betto fala sobre a situação da Igreja Católica e da espiritualidade no mundo atual.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Frei Betto, o senhor afirma que a cultura neoliberal teme o idealismo dos jovens e que o melhor antídoto para isso seria a espiritualidade. Mas como depositar esperança na espiritualidade num mundo onde os jovens cada vez mais se distanciam de tudo o que diz respeito ao espiritual?
Frei Betto: Nós estamos vivendo um mundo de desencantamento. Toda aquela efervescência religiosa, aquele clima de valores e o sentimento de pecado foram desaparecendo.
Por outro lado, curiosamente, há setores que cada vez mais buscam na religião um ponto de apoio para a sua vida e para sua moral, mas de uma maneira desvinculada das questões sociais e políticas.
Sempre lembro duas coisas: primeiro, a espiritualidade é essencial a cada um de nós, seres humanos. A pessoa pode não saber como trabalhá-la. Nesse caso, corre até o risco de projetá-la onde não deve. Alguns têm idolatria pelo próprio carro, outros por uma figura política.
Por outro lado, nós temos hoje uma necessidade muito forte da questão ética. Ou seja, nós saímos do mundo onde os valores eram regidos pelo conceito de pecado. Pecado é aquilo que vem de fora para dentro. É a minha igreja, a minha denominação religiosa que me diz o que é ou não pecado.
Uma vez que isso vai desaparecendo, nós precisamos de uma coisa mais interiorizada que se chama ética, que vem lá dos gregos, de Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas ainda não houve tempo suficiente para fazemos essa travessia.
Um exemplo é a deslavada corrupção que vemos no Brasil e no mundo inteiro, onde as pessoas seguem a linha ‘cada um por si Deus por ninguém’.
Passam o outro para trás, enganam, iludem. É o sujeito que atropela na rua e não socorre, que não respeita a faixa de pedestre, joga papel pelo vidro do carro, se gaba de ter recebido troco a mais do caixa do supermercado e sai feliz pela rua. Enfim, isso é safadeza bruta, isso é a deterioração do ser humano, dos nossos valores.
Creio que as escolas, as famílias e as igrejas têm um papel muito importante, mas, sobretudo o Estado - ele deveria ser o grande indutor da formação ética da nação.
Marco: Do grupo de dominicanos presos pelo regime militar porque só Frei Tito foi tão barbaramente torturado?
Frei Betto: O Governo Médici não esperava que a prisão de um grupo de frades provocasse tanta repercussão, sobretudo no exterior. O processo era muito frouxo diante da repercussão que teve. Era preciso ‘engrossar esse caldo’. Fazer com que os frades viessem a confessar, por exemplo, participação em expropriações bancárias e ações armadas.
Por coincidência, foi preso o homem que, a pedido de frei Tito, conseguiu o sítio para realização do congresso da UNE em 1968.Em conseqüência, Tito foi o primeiro de todos nós a passar pelo rolo compressor do centro de torturas do exército aqui em São Paulo. Depois, cada um de nós também passaria pelo mesmo.
Mas como Tito, não suportando três dias de intensas torturas, veio a cortar a artéria do braço esquerdo com uma gilete, tiveram que levá-lo ao hospital militar. Era grande o medo da repercussão de um padre assassinado nas masmorras da ditadura militar brasileira, isso seria um escândalo mundial com reações do Vaticano. Então, o sacrifício do Tito evitou que nós passássemos pelo mesmo.
Marco: Durante o pontificado de João Paulo II, quase 150 teólogos foram silenciados pela Igreja Católica por defenderem idéias renovadoras que batiam de frente com o Vaticano. Como o senhor vê esse tipo de cerceamento da liberdade?
Frei Betto: Há duas coisas que eu lamento muito na Igreja Católica. Estou nela, portanto tenho o direito de criticá-la, porque faço isso com muito amor e desejo de que ela seja cada vez mais fiel à Jesus e ao evangelho.
Primeiro: o Estado do Vaticano é um dos raríssimos do planeta que até hoje não assinou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi proclamada em 1948.
Segundo: é o único tribunal do mundo (sem considerar ditaduras) que não permite ao réu o direito de defesa. Segundo a lógica do Vaticano, não se pode pressupor que ele, o acusador, esteja equivocado.
Não faz sentido a Igreja hoje punir teólogos. É preciso dialogar com eles, convocá-los, tratá-los como filhos e não como inimigos. A Igreja é uma família. Não se diz que ela é mãe e mestra? Então, uma mãe ao discordar de um filho não o põe pra fora de casa.
Marco: A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo segue sendo motivo de muita polêmica. O senhor acha que o Brasil está pronto para aprovar uma lei dessa natureza, como já aconteceu em vários países?
Frei Betto: Acredito que sim. Estou convencido de que a tendência à homossexualidade é genética, da natureza, como a ciência vem apurando.
Segundo, não vejo porque privar essas pessoas de uma relação amorosa e marginalizá-las, levando-as a situações extremamente dolorosas, de segregação, discriminação e preconceito.
Não vejo nenhuma razão para essa atitude anacrônica, arcaica e preconceituosa de não dar à pessoa que tem uma tendência homossexual, como se dá àquele que tem uma tendência heterossexual, pleno direito de cidadania.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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