Colunistas José Adércio Leite Sampaio

13/01/2009

A sinfonia da mediocridade

GOETHE: “A mediocridade não tem maior consolo do que pensar que o gênio não é imortal”.

EINSTEIN: “Os grandes espíritos sempre encontraram violenta oposição das mentes medíocres”.

ARCHAMBAULT: “On ne peut réduire les autres à l’ordinaire que si, fort de sa proper médiocrité, on se juge supérieur”.

BARRICO: “La crudeltà è la virtù per eccellenza dei mediocri: hanno bisogno di esercitare la crudeltà, esercizio per cui non è richiesta la minima intelligenza”.

“No regrets, no resentment” (the Great White Shark Jaw before dieing)

Estou cada vez mais convencido de que existem dois tipos de alienação: a absoluta e a relativa. Aquela é a de quem vai para o trabalho e, aqui e acolá, sai no fim do expediente com os colegas para um ou uma dúzia de chopp. Quase sempre, no entanto, retorna para casa depois da jornada, toma o costumeiro banho, põe o pijama e o chinelo para assistir ao Jornal Nacional e, enfim, dormir ou, quando coincidem as vontades, dar uma conferida na Lourdinha antes do sono. Nunca ouviu falar de Aristóteles nem se aventurou pelas orelhas dos livros de Kant ou Foucault. Segundo ele, a política é para quem possui o talento do furto coletivo, algo bem distante das miudezas e dos furtos reais do cotidiano. A maior abstração que lhe apetece vem da rica filosofia do futebol. Quem deve ser o técnico ou o volante de seu time. E precisa de mais?

A alienação relativa está imersa em palavras e discussões acadêmicas. Cada prosa tem seus circunlóquios de certezas e determinação. Deus pode não ter morrido para alguns, mas perdeu o monopólio da onisciência para todos. Quantas orelhas e resenhas foram devoradas ao entardecer entre goladas de uísque e o deleite dos charutos que já deixaram antever a brancura amarelada da barba quase sempre bem aparada. Os grandes autores, da filosofia à lingüística, alguns sequer lidos, subscreveram a procuração de sua interpretação quase autêntica, porque autêntica mesmo seria a dos próprios. Depois, porque sempre deixam algo que necessita do complemento do mandatário. Mas a contrafação é tamanha que, descontadas as paráfrases, sobra o ponto final.

Chamo de relativa a essa alienação, porque seus acometidos conhecem o argumento ou pelo menos ouviram dele falar, enquanto aquela, apelidada de absoluta, não deu sequer a possibilidade do conhecimento aos seus titulares. Da crítica, então, melhor esquecer. Direi que estes, absolutos, são piores do que os relativos? Nem de longe. São pobres e úteis inocentes ou quase isso nas mãos dos senhores do mando. Os relativos, por sua vez, são também - e talvez bem mais - escudeiros do statu quo, embora neguem em geral essa característica. É a mesma moeda em suas duas faces, chegando a insistência da negativa a incomodar a inteligência e o bom-senso. Ou a quem sonha com o desdito das coisas como estão.

A empáfia é diretamente proporcional ao ego e inversamente proporcional à segurança (e integridade) do conhecimento. Dizia François de La Rochefoucauld que “le propre de la médiocrité est de se croire supérieur”. Apenas creem na superioridade, pois comprados pelo que valem e vendidos pelo que presumem valer darão um bom lucro. E como são contraditórios. Dizem-se democráticos, mas quando assumem uma posição de poder, mínimo que seja, mostram as presas de um felino que acabou de dominar sua caça. Eis a outra face da moeda que se revela.

Na atividade do magistério, as qualidades do caráter se expressam com vigor incomum. O menosprezo pela graduação é uma de suas pérolas freqüentes, embora seja exatamente com os ignóbeis graduandos que o teatro das vaidades mais se realiza. Não importa se alguém aprende algo como Hegel em 30 minutos, Machado em 15 ou Wittgenstein para o interlúdio (jurídico muitas vezes), pois interessam apenas os elogios da erudição e o desmanche do currículo de eventuais, prováveis ou não, ocupantes do mesmo espaço. Admiração ou o reconhecimento pelo mérito alheio não é um de seus atributos, pois, na terra, é o mestre; no inferno, todos os demais. Mesmo na graduação, há graus do pouco caso.

Ouvi de um amigo a confissão de que um desses felinos (que o Ibama e o Greenpeace me perdõem pela heresia), declaradamente defensor da igualdade e da justiça social, desdenhou um prêmio de melhor bacharelando, conferido a um aluno de uma faculdade pública de direito pelo desempenho escolar obtido. O motivo do pouco caso? O simples fato de ele ter cursado as disciplinas no turno da noite, como se estudar depois das 19 horas fosse atestado de estupidez ou, pior, seus professores fossem menos competentes ou mais relapsos. Nem adiantaram os argumentos de alguns de que a maioria dos docentes era a mesma entre os turnos ou de que esse aluno fora a melhor média de todos os tempos daquela faculdade e, concorrendo com os que viriam a ser matriculados à tarde ou pela manhã, fora primeiro lugar disparado no vestibular que fizera. Quanta bobagem, meu Deus (dos idiotas)!

Pensei: essa preocupação não é pouca para quem vive às ondas com a física quântica? Respondi para os botões: não, meu caro, é a sinfonia da mediocridade que é executada por boa parte de nossos doutores. Talvez a única que resulte original, quando resolvem pensar por eles mesmos no exercício rotineiro de remoerem-se com o sucesso dos outros, de uma lagarta que seja, de um ferrão. Pois bem, fazendo coro com eles e com Vergílio Ferreira, professor e romancista português (“Conta-Corrente V”, 1987), que foi parodiado pelo italiano Alessandro Barrico (“City”, 1999[Albin Michel 2000], p. 246), como é que um tipo medíocre há de saber que é medíocre, se ele é medíocre?

Para ele, o medíocre, a realidade dos textos e da palavra é algo diferente da realidade da vida. Esta fica para os técnicos e práticos; aquela para os jardineiros de Epicuro. Que Epicuro não venha à noite puxar meu pé pela indevida provocação. Inclusive pelo excesso das citações. É que a mediocridade, meu mestre, contagia até pela escrita ou pelo simples gesto de sobre ela escrever.

Comentários







Hélio | 14/01/2009 01:08
Prof. Adércio, como complementação ao ensaio (se é que há algo para complementar), indicaria o livro de José Ingenieros, "O homem medíocre", abrs.


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