Colunistas João Batista Libânio
Solidariedade e paz
No dia 31 de julho, celebramos a festa de Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas. Ultimamente eles se veem envolvidos com as grandes causas mundiais. Chamam-nas de fronteiras. Entre elas a solidariedade e a paz.
Os chavões, que se criaram a respeito deles, dificultam pensá-los envolvidos em tal causa. “Vivem sem se amar, morrem sem ser pranteados” ou “são os belicosos e maquiavélicos defensores do Papado na luta contra os reformadores”. Os imaginários nascem por meio de uma mistura, estilo Código da Vinci, de verdades e invencionices, de constatações e delírios. E, no final, resulta um ingrediente explosivo. Desmontá-los requer a perícia de especialistas de munições.
Em tempos de pós-modernidade soam arcaicos aqueles clichês de épocas polêmicas. Na ponta do movimento ecumênico, em diálogo de fraternidade e esperança com os filhos da Reforma, estão tantos e tantos jesuítas como pessoas e como instituição. Vivemos hoje clima de diálogo ecumênico e interreligioso. A Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - SOTER – celebrou, em julho, um Congresso cujo tema central girava em torno do diálogo entre as religiões.
Para as novas gerações, que vão chegando, torna-se incentivo recordar a figura maravilhosa do jesuíta Cardeal Bea. No campo da exegese, ele sintonizou com autores protestantes. Esteve nos inícios da criação da “Pontifícia Comissão para promover a unidade dos cristãos” e durante o Concílio Vaticano II se tornou o ponto de coesão e de referência das iniciativas ecumênicas. Assim um jesuíta se pôs no lado oposto de posições da contra-reforma, assimilando o novo espírito que alimentou o Concílio e os anos seguintes.
No campo da solidariedade, as Igrejas da América Latina, e, de modo especial, a do Brasil, têm desempenhado papel relevante. Durante os anos escuros da repressão, muitos se entregaram inteiramente à luta de libertação solidária ao lado dos oprimidos, sofrendo perseguição e morte. Enriqueceram o martirológio da América Latina. L. Boff chama-os de “mártires do Reino”, porque entre eles havia crentes de muitas denominações religiosas e não crentes, capazes todos, no entanto, de doar a vida. Solidariedade não é uma palavra vazia nem um mote de discurso. Vem vestida de vermelho do sangue. E de muitos irmãos nossos jesuítas. Em El Salvador, o martírio de Rutilio Grande está na origem da transformação espiritual daquele que se tornou, também ele, mártir: Mons. Oscar Romero. No Brasil, o P. Burnier caiu sob a bala de policiais, ao defender mulheres pobres e desprotegidas numa delegacia do interior.
A partir dessa base sólida e evangélica do martírio, ampliamos os anseios de solidariedade. Soa imediatamente: Fórum Social Mundial. Aí se entrelaçam fios de movimentos, iniciativas, propostas, utopias, sonhos de que “um outro mundo é possível”. Não o será já por obra de gênios e heróis isolados, mas de crescentes ondas de grupos nacionais, regionais e mundiais. Caminha-se em direção a uma cultura solidária no seio mesmo do neoliberalismo e da pós-modernidade individualista, hedonista e materialista. Só o calor do Espírito consegue derreter o gelo da cultura atual, fazendo correr rios de água comunitária a fecundarem o solo da nova sociedade solidária emergente.
Essas águas confundem-se na foz com a paz. Último anseio de corações e mentes rebeldes e resistentes à máquina bélica, armada pelas nações poderosas. De todas as partes, surgem protestos contra as pretensões armamentistas dos EUA que se enchafurdam na contradição de querer impor belicamente a democracia. Concretizam, em termos de hoje, o insano fabordão romano: si vis pacem, para bellum.”Se queres a paz, prepara a guerra”. A utopia da paz desce às ruas do cotidiano numa profilaxia contra toda violência. Guerra, violência urbana e rural rasgam a túnica inconsútil da paz que se tece da cultura da reconciliação, do perdão, da acolhida, do “saber cuidar”. Sonha-se com uma sociedade que refuga todo tipo de ação brutal – com perdão dos “brutos” (animais) que são paradoxalmente mais “humanos” do que muitos humanos. As semânticas nos confundem. Os brutos se domesticam e se aproximam do ser humano, enquanto os humanos recorrem à inteligência para criar uma violência que nenhum animal conhece. Só uma volta à real humanidade gesta a cultura da solidariedade e da paz.
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