Colunas João Batista Libânio
A situação da Amazônia
O Fórum Social Mundial trouxe para o proscênio da temática ecológica a Amazônia. Levanta-se a grave pergunta: A quem pertence a Amazônia? Ao mundo ou ao Brasil? Digladia-se. A correta resposta articula as duas perguntas numa só resposta. Do Brasil com responsabilidade mundial. Pertence-nos, sim, mas carregamos a enorme tarefa de cuidar dela como bem de toda a humanidade. Isso surgiu como tônica do FSM.
“A responsabilidade é uma função do poder e do saber” (Hans Jonas). Inverteria a ordem da afirmação do autor de uma das obras filosóficas mais importantes sobre a responsabilidade. A responsabilidade exige saber e poder. Primeiro a responsabilidade, depois a busca de conhecimento e influência. O nosso problema a respeito da Amazônia consiste em que sabemos pouco e dispomos de pouco poder sobre seus destinos. Daí nossa terrível “carência de responsabilidade”.
Cabe à mídia, aos intelectuais, especialmente aos geógrafos da estatura intelectual de Milton Santos - que nos deixou enorme vazio com sua morte -, aos políticos a tarefa de informar-nos objetiva, isenta e abundantemente sobre a complexidade do problema da Amazônia.
Entram em jogo interesses tão gigantescos que sempre paira a suspeita da mentira, do engodo, do escondimento tão próprios dos embates ideológicos. Paradoxalmente carecemos de conhecimento da realidade num oceano infindo de informações. Gera-se o desconhecimento pelos extremos do silêncio e do excesso de dados. Ambos paralisam. Um por falta de alimento, outro por superabundância.
No momento sofremos dos dois males. Paira sobre muitos aspectos da Amazônia suspeitoso silêncio. Doutro lado, agitam-se no mundo simpósios sobre a Amazônia a fim de inibir o governo brasileiro em suas decisões.
Quanto mais pesquisas, discussões, seminários se fizerem sobre a Amazônia e mais vozes diferentes se ouvirem, tanto mais se conseguirá ir construindo um quadro objetivo da realidade. Até aqui o saber. Base primeira da responsabilidade.
Saber sem poder frustra o conhecimento. O poder tem muitas caras. Na clássica análise estrutural da sociedade coloca-se o poder do lado do Estado. Fala-se então do poder legislativo, executivo e coercitivo (judicial e seu braço armado). Visão pobre do poder. A sociedade desempenha enorme poder por meio do jogo das idéias, das imagens, dos símbolos, do imaginário, criado pela família, escola, igrejas e sobretudo pelos meios de comunicação social. Espaço em que todos influenciamos no limite de nossas possibilidades.
Cresce a consciência de um novo poder. A sociedade civil organizada: ONG, movimentos sociais, cooperativas, organizações profissionais, sindicatos, etc.
A Amazônia será tanto mais do Brasil quanto mais em todos esses níveis do poder ela nos estiver presente como objeto de consideração e decisões. Há ONGs especializadas na Amazônia. Elas cumprem tanto a função de informação quanto de pressão no campo do poder.
Ao conjugarem-se nível maior de informação e espaço crescente de influência decisória, a Amazônia responderá à sua dupla vocação de ser do Brasil para a Humanidade.
João Batista Libânio
é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
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