Colunas João Batista Libânio
04/07/2012
Desperdício de alimentos
![]() Só quem pensa nos famintos e na escassez futura se interessa por esse problema da perda excessiva de alimentos (Foto: AFP) |
O desperdício oxigena o sistema econômico. Eis porque não interessa ao mundo da produção de alimentos, especialmente dos industrializados, que se aproveitem os restos ou que se consuma mais parcamente. A perspectiva da sobriedade e do uso social dos bens alimentícios se nutre de outra fonte de inspiração que a da economia capitalista.
Criar essa mentalidade implica modificar as regras do jogo. Nada leva a crer que haja interesse em fazê-lo da parte dos jogadores que estão vencendo o jogo da economia. Ganhará com essa mentalidade dois sujeitos ausentes para o capital dominante: os pobres e as gerações futuras.
Só quem pensa nos famintos e na escassez futura se interessa por esse problema da perda excessiva de alimentos. A indústria se funda no perecível, no descartável para movimentar o fluxo financeiro. Desde que se monte uma indústria, por menor que seja, ela se vê impelida a crescer para não ser tragada pela voragem das outras indústrias, a mover-se em direção a crescente capitalização. Supõe lucros sempre maiores para investir mais. Ora se os bens demoram a ser comprados porque os vendidos duram mais ou porque as pessoas os usam com parcimônia, isto baixa a procura, diminui os lucros, emperra o crescimento da empresa.
Basta ver o exemplo da indústria automobilística. No Japão, um automóvel de mais de cinco anos já não circula. Quer dizer que sua vida útil no interno do país não ultrapassa cinco anos. Isso obriga que se comprem e, portanto, se vendam sempre novos carros. Esse modelo funciona em todo o sistema consumista capitalista.
Colocar-se do lado do aproveitamento máximo dos alimentos, não os desperdiçando, significa perfilhar o time dos perdedores em vez de aplaudir os vencedores. Só por convicção e por princípios éticos maiores se entra nessa batalha dos vencidos em busca de converter os vencedores. Nada fácil!
Quando os vencedores se deixarão dobrar? Triunfam no mundo econômico, mas não ético. Portanto, a ética tem força para vergar a economia. A utopia assenta-se no pressuposto de vislumbrar a vitória da ética. Nisso apostamos.
Psicólogos e antropólogos debatem em torno da natureza profunda do ser humano. Uns julgam que ela se inclina mais para o egoísmo, para os interesses próprios, como Adam Smith imaginava. E desse jogo de egoísmos surge, segundo o economista escocês, por meio de mão invisível, o bem coletivo. Os fatos parecem sufragar essa visão.
Outros, tocados pela fé cristã, acreditam na radicalidade fundamental de bondade, de solidariedade do ser humano. No final das contas, seu existir remonta ao ato criador do Deus comunidade, conformado a Cristo, o ser-totalmente-para-os-outros.
Nesse fundo antropológico, diríamos sobrenatural, a graça atua. Em nome e na esperança da graça acolhida, apostamos na causa que navega contra a correnteza do sistema e da cultura consumista. Não ao desperdício por amor e respeito aos famintos! Não ao desperdício para que haja mais bens, não para o comércio lucrativo e rápido, mas para distribuição que só a longo prazo azeitará a maquinária econômica! Em vez de desperdício, solidariedade!
Criar essa mentalidade implica modificar as regras do jogo. Nada leva a crer que haja interesse em fazê-lo da parte dos jogadores que estão vencendo o jogo da economia. Ganhará com essa mentalidade dois sujeitos ausentes para o capital dominante: os pobres e as gerações futuras.
Só quem pensa nos famintos e na escassez futura se interessa por esse problema da perda excessiva de alimentos. A indústria se funda no perecível, no descartável para movimentar o fluxo financeiro. Desde que se monte uma indústria, por menor que seja, ela se vê impelida a crescer para não ser tragada pela voragem das outras indústrias, a mover-se em direção a crescente capitalização. Supõe lucros sempre maiores para investir mais. Ora se os bens demoram a ser comprados porque os vendidos duram mais ou porque as pessoas os usam com parcimônia, isto baixa a procura, diminui os lucros, emperra o crescimento da empresa.
Basta ver o exemplo da indústria automobilística. No Japão, um automóvel de mais de cinco anos já não circula. Quer dizer que sua vida útil no interno do país não ultrapassa cinco anos. Isso obriga que se comprem e, portanto, se vendam sempre novos carros. Esse modelo funciona em todo o sistema consumista capitalista.
Colocar-se do lado do aproveitamento máximo dos alimentos, não os desperdiçando, significa perfilhar o time dos perdedores em vez de aplaudir os vencedores. Só por convicção e por princípios éticos maiores se entra nessa batalha dos vencidos em busca de converter os vencedores. Nada fácil!
Quando os vencedores se deixarão dobrar? Triunfam no mundo econômico, mas não ético. Portanto, a ética tem força para vergar a economia. A utopia assenta-se no pressuposto de vislumbrar a vitória da ética. Nisso apostamos.
Psicólogos e antropólogos debatem em torno da natureza profunda do ser humano. Uns julgam que ela se inclina mais para o egoísmo, para os interesses próprios, como Adam Smith imaginava. E desse jogo de egoísmos surge, segundo o economista escocês, por meio de mão invisível, o bem coletivo. Os fatos parecem sufragar essa visão.
Outros, tocados pela fé cristã, acreditam na radicalidade fundamental de bondade, de solidariedade do ser humano. No final das contas, seu existir remonta ao ato criador do Deus comunidade, conformado a Cristo, o ser-totalmente-para-os-outros.
Nesse fundo antropológico, diríamos sobrenatural, a graça atua. Em nome e na esperança da graça acolhida, apostamos na causa que navega contra a correnteza do sistema e da cultura consumista. Não ao desperdício por amor e respeito aos famintos! Não ao desperdício para que haja mais bens, não para o comércio lucrativo e rápido, mas para distribuição que só a longo prazo azeitará a maquinária econômica! Em vez de desperdício, solidariedade!
João Batista Libânio
é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
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