Colunas João Batista Libânio
Alimentação saudável
O romano primava por cultivar “a mente sã em corpo são”. Infelizmente, a cultura dos nossos dias pratica certa confusão respeito à sanidade. Apregoa propagandisticamente a importância da saúde do corpo. Abrem-se inúmeras academias. No entanto, o povo torna-se visivelmente obeso, doentiamente gordo, adiposamente pesado. Come-se mal por falta de educação. As guloseimas a qualquer hora, os farináceos abundantes, os big macs, os fast foods ingeridos à velocidade, enfim hábitos doentios de comer minam o mesmo organismo que se malha nas academias.
A saúde começa com a alimentação. Esta falha por pobreza ou por falta de disciplina. A pobreza se vence pela justiça social, pela melhor distribuição de renda, pelo cuidado do Estado em relação aos carentes. A merenda escolar tem sido um dos pontos positivos da luta contra a má alimentação nas regiões e classes carentes. Mas onde circula dinheiro, as crianças e jovens se vêem assediados por provocações alimentícias a todo momento sem a mínima noção e cuidado com a disciplina alimentar. Aqui a cura vem pela educação.
Confundem-nos freqüentemente as mentiras da propaganda de alimentos. A arrepio da verdade com a finalidade de vender produtos anunciam-se como saudáveis iguarias ou alimentos industrializados, carregados de ingredientes conservantes e de substâncias pouco confiáveis. A química alimentícia tem substituído por comodidade das cozinhas ou pela pressa das refeições as sadias comidas do fogão de lenha.
De roldão vai-se também embora a cultura popular. Minas goza de excelente tradição de comidas caseiras. D. Stella Libanio, que nos deixou faz pouco, enriqueceu-nos com trabalhos de pesquisa culinária, recuperando de fazendas e fundões mineiros receitas perdidas ou ainda vivas só na memória de venerandas cozinheiras.
Para ganhar credibilidade, as campanhas do Governo não deveriam deixar-se atrair pelo canto das sereias do mercado que salmodiam melodias sedutoras sobre os benesses de produtos suspeitos. Viver em sociedade do marketing desvairado dificulta encontrar a verdade. Esconde-se atrás dos conselhos de especialistas a suspicácia de que eles se põem antes ao serviço dos laboratórios e indústrias alimentícias do que ao da saúde do povo. Críticos lúcidos como Jean-Claude Guillebaud denunciam a cumplicidade de cientistas renomados com as empresas financiadoras em vez de esposar a verdade científica da pesquisa. Se isso acontece com o lenho verde dos pesquisadores de grande porte, que esperar de técnicos de esquina a serviço de interesses espúrios?!
Sofremos no mundo das mentiras e das invencionices do mercado à cata de pedaços de verdade. Cabe aos educadores conscientes e responsáveis a árdua missão de desfazer os engodos da visibilidade comercial e introduzir a infância e adolescência no reino sereno da lucidez.
* J. B. Libanio é autor de Em busca de Lucidez. O fiel da balança. São Paulo, Loyola, 2008. Para mais informações acesse o site http://www.jblibanio.com.br
João Batista Libânio
é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
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Comentários
Bem disse, resumindo seu texto, que "sofremos"... de tantas formas, digo eu. E todas essas formas aliadas a uma falta de educação para a lucidez . Lucidez que, se não for trabalhada nos berços, tem chance com o trabalho das escolas bem organizadas com a formação de seus profissionais, sobremaneira: a formação dos professores. Sabem os governos mas, não querem.. a lucidez, do povo...