Colunas José Adércio Leite Sampaio
Ode à ambição
“The very substance of the ambitious is merely the shadow of a dream.”
(William Shakespeare)
O comodismo é uma forma letal de apagar suas ambições. É o peso da inércia e do statu quo. Não se trata de não mudar o time que está ganhando. Trata-se de não mudar. De jeito algum. Diversas religiões e os seus substitutos contemporâneos, os manuais de autoajuda, tentam preveni-lo contra a ambição.
Ela seria uma forma de negar o cotidiano e de adiar o prazer. Maneira de autopunição por déficit de autoestima. Você quer sempre algo diferente do que é. Nega suas qualidades e condições como autoprojeção da queixa renitente de que o vizinho tem sempre o jardim mais florido. O emprego, as facilidades, a sorte que lhe escaparam. Por isso, a ambição.
Chamam de ambição, muitas vezes, o que não passa do comodismo e da paralisia. Você pode ambicionar um mundo de coisas, mas não faz nenhum esforço para obtê-las. E, logicamente, irá culpar o destino pela derrota. Contra Wilde, não é a ambição, mas o comodismo, o refúgio do fracasso.
Pode ocorrer também de as ambições padecerem da síndrome de “Cérebro” ou da ganância: não lhe basta conquistar um coração apaixonado, você quer que todos os corações do mundo estejam postos em prateleira à sua disposição. O jeito é jogar na loteria e, por um ou dois dias, acreditar que tudo se resolverá. Essa forma de ambição não passa também de um comodismo dissimulado.
Ao contrário do que dizem, são essas falsas pretensões de transformação, esses modos transvestidos de comodismo que anulam as bases da solidariedade. A carência essencial escondida (e alimentada) na insatisfação leva à negação do outro, especialmente por meio da inveja.
Custa-lhe acreditar que seja um invejoso. E da pior espécie. Se bem que nenhuma inveja é, como se alega, construtiva. Ela é sempre um meio de alimentar a carência interior e agravar seu sadomasoquismo. A ilusão de que ferindo o outro, você terá prazer. Um invejoso sadomasoquista é o que você acaba sendo, ao fugir da ambição.
Politicamente, o comodismo e as falsas ambições são uma tragédia. Em primeiro lugar, por corroerem a liga indispensável de confiança mútua. Depois, pelo efeito do imobilismo coletivo. A sociedade vira refém da autoridade. Sem ambição, viveremos sempre na menoridade cívica. Não é apenas o medo, como dizia o Marquês de Maricá, tampouco a ambição, mas o comodismo, a razão das tiranias.
Então, seja ambicioso. É certo que o passado está nos livros e nos museus. E que o futuro é sempre imponderável, restando-lhe o presente para viver. Então, viva-o como se ele não fosse mera continuidade do que passou.
Almeje um futuro diferente, melhor, grandioso. Você também tem direito. Não se trata de um privilégio alheio. Nem seu. Por isso não precisa destruir ninguém para consegui-lo. Ao invés, viva a construir sonhos e a persegui-los. É o que temos realmente para viver.
A carência? Bom, ela é essencial mesmo. Saiba apenas como tratá-la bem. Geniosa em seus caprichos, ela será sua inevitável e provavelmente única companheira até o fim.
José Adércio Leite Sampaio
é Jurista. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Procurador Regional da República. Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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Comentários
Querido Mestre, simplesmente adorei! Vejo a vida da mesma forma que você. Lamentar o passado, reclamar do presente, mas ficar inérte diante do futuro. Isto é para covardes. Se não gosta do que faz, ou não possui o que gostaria de ter, reescreva sua história. Deixe sempre paginas em branco no livro da vida, para uma possível reconstrução.
Este seu nobre texto serviu-me como luva. Vou passar a te considerar, além de grande mestre, meu guru. Foi consolador, revelador, e elevou meu espírito ao estado de catarse. Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Sério, não? Abraço