Colunas João Batista Libânio
Aborto
É muito doloroso e difícil encarar de frente a questão do aborto. Está em jogo dispor da vida de um inocente. Quem tem coragem de assassinar uma criancinha pequena? Só os bárbaros e cínicos nazistas dos campos de concentração que ouviam Beethoven e mandavam para o crematório crianças judias inocentes. Só os hediondos traficantes de órgãos infantis. Não entremos nesse universo da monstruosidade humana. Horroriza-nos.
O aborto dificulta entender e perceber que se mata uma criança. Numa aula de medicina, o professor discorria sobre doenças perigosas para mulheres grávidas, devido às conseqüências sobre o nascituro. Num determinado caso, dizia o professor que havia alta probabilidade, digamos 80%, de que a criança nascesse defeituosa. E que nesses casos aconselhava-se o aborto terapêutico.
Um aluno de medicina, hoje já maduro e renomado médico, levantou a mão e disse: - "Professor, há 20% de probabilidade de que a criança nasça saudável". - "Sim, é verdade. - "Então" , retrucou, "deixemos a criança nascer. Se estiver sadia, salvamos uma vida. Se nascer defeituosa, matemo-la!" E calou-se. Pesou sobre a aula silêncio funéreo. O professor perdeu a palavra.
Então a questão é de ver ou não ver se matamos? Solução: quando for matar uma pessoa, escolha-se a escuridão e execute-a, porque não se verá sangue nem morte. Algo semelhante que passou no mundo da tortura na Alemanha nazista e no Brasil militar. Os que davam as ordens para torturar ou assassinar o preso político, faziam-no burocraticamente sobre um papel branco, inocente, com simples tinta. Lá embaixo os bárbaros e sujos criminosos executavam a ordem. São os Eichmanns da história. Mais cinismo se mostra ainda na linguagem. Os americanos quando bombardearam o Iraque e mataram milhares de pessoas, chamaram tais ataques bárbaros de "intervenções cirúrgicas". Algo absolutamente inocente. Eichmann, ao destinar os judeus para a câmara de gás, escrevia: "tratamento especial". Bem especial mesmo!...
A questão do aborto complica-se, porque se fosse colocada nos termos que fiz, provocaria uma rejeição total e sem talvez. Mas desloca-se o problema para o jogo entre a vida da mãe e a da criança, como se devesse escolher a quem eliminar. Ou deixar que a mãe talvez morra pelo risco da gravidez, ou arrancar o feto por intervenção médica. Ou levanta-se o problema de que vida levará a criança deficiente. Não lhe seria melhor a morte? Mas quem tem o direito de suprimir a vida de alguém, porque ela se tornou infeliz ou poderá sê-lo no futuro para si ou para a família? Tal princípio justificaria as eugenias, tentações permanentes dos racistas e dos regimes totalitários.
Só consigo entender que pessoas civilizadas, sem má consciência, destruam a vida de um feto, no pressuposto, altamente discutível, de que não se trata de uma vida humana. Desloca-se a questão: quando um feto começa a ser ser humano? Os juristas definem em termos de sujeito de direitos reconhecidos. A ética vai mais longe. Mesmo que o feto não tenha nenhuma possibilidade jurídica de reclamar seu direito, a ética se pergunta pelo direito à vida e que todos devem respeitar. Nada justifica apagar por decisão humana mesmo que seja pequena chama de vida inocente. Hoje a consciência mundial já avança ainda mais longe. Chega a rejeitar a pena de morte até mesmo para criminosos. E a fortiori, com muito mais razão, condena que se atente contra a vida de um inocente.
Mas alguém pode acrescentar. O organismo humano rejeita, em muitos casos, o feto, provocando aborto natural. Se a natureza o faz, por que a medicina, com razões sérias, não pode fazê-lo? Se a natureza provoca um vulcão e mata Pompéia, por que não podemos produzir vulcões atômicos e matar japoneses em Hiroshima e Nagasaki? É uma questão dolorosa, mas não podemos fugir da verdade nem da honestidade em tratá-la. A vida humana merece ou não merece respeito absoluto: That is the question, diria Shakespeare. Está é a questão. Portanto, o problema do aborto põe em evidência outras inúmeras maneiras como criminosamente destruímos as vidas humanas.
João Batista Libânio
é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
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Comentários
A questão discutida é bem mais complexa do que quando o feto começa a ser humano.Se pensar bem,desde o momento que o espermatozoide busca o óvulo ele já começa a ser humano. A questão é que todos temos direito a vida assim como diz aLei.E você não acha que a maioria das mães daria a vida mesmo que o humano ainda não existisse?